Coimbra  18 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Quando eu for grande, quero ser…

4 de Março 2022

Médica de família. A Sofia tem 7 anos, os seus pais não são médicos e tem a liberdade criativa que a sua idade e as suas características lhe permitem fruir.

Daqui a 17 anos, quem será responsável por não serem defraudadas as expectativas da Sofia e de outros meninos e meninas que têm convicções e ilusões, e se encarregue de manter a sua vontade quando crescidos e desenvolvidos?

Os governos poderão mais legislar, enquadrar e promover o estatuto e a condição. Mas reconhecerão o significado de cuidar da família, ser médico da doença e da saúde, ser médico de proximidade e ter solidariedade institucional? E criar-lhe-ão condições de exercício profissional dignas para receber quem precisa, sem falta de material e equipamentos, com informática do futuro que será presente e com remunerações que não sejam sujeitas a indicadores capciosos?

As pessoas poderão reconhecer a importância do médico de família, que lhes faz falta. Mas compreenderão que é um amigo (não virtual), que zela por si quando está doente, que previne doenças e aconselha na saúde, que o plano de cuidados que estabelece o (a) envolve a si e à sua família, que deve ser estimado e não ser agredido física ou verbalmente?

A sociedade organizada poderá constatar a importância do médico de família para a comunidade, na comunidade. Mas colocar-se-á ao seu lado quando observar as suas inquietações por querer fazer e mais não poder, quando precisar da justiça e da solidariedade da sociedade civil e quando os seus direitos forem aviltados?

Os médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, organizados em classes profissionais, poder-se-ão defender e dedicar-se à própria competência técnica e científica, atribuindo idoneidade. Mas pesquisarão e reconhecerão as dificuldades do médico de família no seu desempenho profissional, apoiá-lo-ão quando as contrariedades forem maiores que a satisfação profissional, disseminarão por seu dever a atribuição do mérito do médico de família em qualificação e humanismo?

Os médicos de família poderão ser um pilar dos cuidados de saúde e de um Serviço Nacional de Saúde para todos, e compreender o que é o trabalho de equipa. Mas estarão unidos na qualidade da sua prestação de serviço sem ditadura de indicadores falacciosos que influenciem a sua retribuição pecuniária, ligados na sua prática como médicos gerais e como médicos de família utilizando a famililogia e a familisofia, confortáveis no seu atributo de serem profissionais em ser humano?

Os doentes sofrem e poderão ter os cuidados de saúde com base na evidência científica, adequados no mundo civilizado. Mas entenderão os limites de uma ciência que não é exacta como a matemática, aceitarão a falha do sistema que outros deveriam assumir, compreenderão o genuíno médico de família que faz o que pode, faz o que deve e o abraça no seu olhar, na sua voz, no seu toque, na sua fiel solidariedade?

A Sofia pode mudar de opinião, pois encontra-se em formação e o mundo que a rodeia não é cor de rosa, nem sempre articula direitos e deveres, nem sempre o pensamento é oportunidade e ocasião. Agora, está preocupada com a amiga que tem família na Europa, sujeita à guerra e aos atropelos desumanos.

A Sofia será o que ela quiser e souber, sendo ou tendo um médico de família pela vida fora, sem interrogações e com assumpção de respeito, humanidade e coesão social. E será feliz.

(*) Médico