Coimbra  25 de Setembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Quando a natureza ruge: O ciclone de 1941 e o nevão de 1983

9 de Fevereiro 2017

13 - JP Neve em Coimbra - a zona da Portagem, 1983

 

13 - JP Neve em Coimbra, 1983

 

Na História Meteorológica Portuguesa respeitante ao séc. XX figuram dois fenómenos raros, extremos e complexos, que têm a curiosidade de terem ocorrido no mesmo mês (Fevereiro) mas separados por 42 anos.

O primeiro ocorreu há 76 anos, no dia 15 de Fevereiro de 1941, e ficou popularmente conhecido como «O Ciclone de 1941». Na verdade, tratou-se de uma tempestade de vento, determinada por uma perturbações extratropical, com fortes gradientes barométricos e intensa actividade convectiva.

Esta tempestade terá sido a mais violenta desde que há recolha de registos meteorológicos (finais do século XIX): as rajadas máximas atingiram no Porto 130 km/h, em Coimbra 133 km/h, em Penhas Douradas 148 km/h, em Lisboa 127km/h e em Portimão/Tavira 150 km/h. Já os quantitativos de precipitação foram relativamente reduzidos, a oscilar entre os 7,8 mm de Coimbra e os 16,5 mm de Lisboa.

A imprensa da época divulgou, nos dias seguintes à tempestade, os efeitos nefastos que se fizeram sentir um pouco por todo o território destacando, além do elevado número de vítimas mortais, os milhares de árvores arrancadas, as inúmeras estradas intransitáveis, as casas destelhadas, as povoações isoladas, a rede elétrica destruída e as ligações telegráficas e telefónicas interrompidas. Os prejuízos foram, então, avaliados em cerca de um milhão de contos.

No Município de Coimbra estimaram-se em 6 000 contos, aproximadamente, os danos sofridos, salientando-se os estragos nos Hospitais da Universidade e a razia na floresta, com mais de 230 000 árvores arrancadas.

O outro fenómeno meteorológico verificou-se entre os dias 11 e 15 de Fevereiro de 1983, com ocorrência de queda de neve em várias zonas de Portugal Continental a cotas muito inferiores às habituais. Em Coimbra, a neve caiu na madrugada do dia 11 (sexta-feira), com especial intensidade, e o momento ficou conhecido como «O nevão de 1983». Esta rara situação ocorreu, em termos meteorológicos, durante uma onda de frio que na região Centro durou entre 06 e 17 de Fevereiro.

Foi o último grande nevão de que há registo na nossa região e ficou marcado na memória de muitos. Não só pela surpresa em si, que a todos apanhou desprevenidos, mas também pelos transtornos que causou na cidade, designadamente, ao nível da circulação rodoviária, funcionamento do comércio e serviços, e perturbação do ritmo escolar.

(*) Historiador e investigador