Coimbra  19 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Postal (des)ilustrado: Ingratidão do nosso Estado para os bombeiros

18 de Maio 2018

Um dos bombeiros queimados, para tentar salvar vidas, haveres e bens dos seus concidadãos, na última vaga de fogos florestais que varreu, e principalmente, o Centro de Portugal, fica – veja se consegue ler bem – fica, volto a repetir, com uma pensão de invalidez de 267 euros, acabando por demonstrar como funciona este país.

Trata-se de Rui Rosinha, dos Voluntários da Castanheira de Pêra. Quantos mais Ruis, Manéis, Paulos, Marias, Patrícias e outros tantos bombeiros de Portugal devem estar em situação idêntica?

Este bombeiro, de 40 anos, viu a morte, cheirou-a e sentiu-a, com outros(as) colegas. Esteve três meses em coma. Esperou que um heli viesse do sul, lá dos lados do Algarve, para o levar para uma unidade de saúde de referência, no Porto. Aguardou esse meio de transporte na Lousã e não no local onde ficou gravemente ferido. Ficou internado seis meses, tendo, e de permeio, sido transferido para uma das unidades do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Depois, levaram-no para casa. Tem andado a fazer fisioterapia na Santa Casa, lá da terra.

No Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses de Coimbra foi avaliado. Deram-lhe uma incapacidade de mais ou menos 85 por cento.

Este quadro obriga-me a exercitar a mente para aquilatar sobre o valor monetário que lhe foi concedido para viver, melhor sobreviver…

Primeiro: os bombeiros de Portugal, os que servem as corporações e, também, o país, não têm seguro de vida?

Segundo: o Estado trata quem o defende, quem dá a “vida por vida”, quem é abnegado, quem está disposto a ir combater incêndios – florestais, urbanos ou outros – quem ocorre a sinistralidade vária, desta forma tosca, desumana, imbecil, fria, aberrante, desqualificada, sórdida e de uma ingratidão sem precedentes?

A verificar-se o primeiro pressuposto, estamos perante um desarticulado legal sem precedentes em qualquer país europeu. Estamos num Estado que, apesar de se arrogar de Direito, não o é… nem para lá caminha, pelo desajuste que se alinha e se percebe em muita actividade, em muita situação e em muitos casos que, e depois quando se registam, trazem a nu as circunstâncias e as terríveis realidades que deixam gente completamente desapoiada. Desprotegida e a sofrer com a família.

Gente que era válida, enquanto servia sem descanso e voluntariamente a coisa pública. Mas, e quando caiu por terra, na defesa do próximo e dos seus bens e haveres, passou a ser coisa e deixou de ter valor humano e pessoal.

Quanto ao segundo aspecto, já se sabe que o nosso Estado, ou melhor dizendo, as instituições oficiais que dependem de nós, dos nossos impostos, olham para o umbigo. Só têm olhos para os deputados, para certos agentes e para determinados administradores. Para esses atrelam-se todo o tipo de benesses. Até as viagens, como agora veio a público, num atentado às mais elementares regras de ética e de transparência de uma democracia que se preze… porque dizem que habitam ali e residem acolá.

Não faço ideia qual seria a actividade profissional de Rui Rosinha. Mas, e aos 40 anos, depois de uma vida de entrega aos outros e de trabalho, levar com um cheque, a modos que uma esmola, de 267 euros é, e no mínimo, um ultraje a ele, a nós seus compatriotas e devia fazer corar de vergonha e de indignação os srs. políticos, todos eles sem excepção. Todos têm pactuado com esta engrenagem que não soube, até agora, ser justa, premiar quem defende o país e as suas gentes, assim como não consegue legislar para estar precavida para estas situações que chocam e não abonam a um Estado que, e acima de tudo, deve ser uma pessoa de bem, mas não o tem sido. Abril, já foi faz mais de 40 anos… Certas mentalidades perduram. Certas mudanças tardam. Certos políticos continuam a actuar como se fossem donos e senhores de tudo isto. Como se a democracia seja um feudo, deles, dos políticos…

Esta pensão de invalidez é uma ingratidão cruel e que marca a nossa história democrática. E da forma mais vergonhosa e inqualificável. Tenho nojo que isto aconteça, no país que me viu nascer e que amo.

Os bombeiros de Portugal não merecem este tratamento de polé… Merecem que as instituições se preocupem com eles e com outros dos nossos irmãos que precisam de apoios para sobreviver. Os outros, os que desviam e se sentam nas mesas de orçamentos chorudos, com viagens e outras mordomias pagas por todos nós, precisam de mudar… mentalidades, formas de estar e maneiras de servir o país e os portugueses.