Coimbra  14 de Julho de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Pinto dos Santos – O último presidente da Freguesia de Santa Cruz

13 de Janeiro 2017

Conheci António Pinto dos Santos a 24 /11/2005. Nesse dia, reunimos na sede da Junta de Freguesia de Santa Cruz, hoje transformada em delegação da União de Freguesias de Coimbra, onde me confiou, após breve troca de ideias, o projecto cultural Monografia da Freguesia de Santa Cruz.

Apesar da dimensão do desafio – temporal, espacial e financeiro – sossegou-me pela força do discurso tranquilo: «Dr., esteja á vontade. O dinheiro não será problema. Ele existe, está é mal distribuído. E quanto ao tempo que vai demorar, o importante é que se faça, mesmo que tenha de trabalhar para lá do meu mandato. A freguesia está acima de tudo».

Se o disse melhor o fez. A monografia foi lançada a 19 de Março de 2011, depois de um longo e extenunante trabalho de investigação, no qual tivemos de ultrapassar alguns obstáculos, vindos de sectores inimagináveis numa cidade como Coimbra. Nas horas de alguma revolta dizia-me: «sabe Dr. não valem um caracol».

A empatia que se estabeleceu entre nós, desde a primeira hora, fez com que brotasse uma amizade sólida e profunda. Passei a frequentar os eventos culturais e sociais da freguesia, a ser ouvido na sua organização, a colaborar, com gosto e honra, em tudo quanto me pedia.

Relembro Pinto dos Santos como um senador que faz falta à política local. Muita falta pois era um homem de causas; sentia a freguesia e seus fregueses, os problemas e dificuldades de cada um e queria resolvê-los de forma objectiva. Amava a cidade, a baixa doente que queria revitalizada, e a sua querida Pedrulha. Não acreditava, porém, na maioria dos protagonistas, porque se vendiam «por um prato de lentilhas», centrando-se na resolução dos interesses pessoais em desfavor dos colectivos: «Eles que venham primeiro gerir uma freguesia para ver como é», rematou numa das nossas longas conversas.

Aquando da reforma administrativa de 2013 seguiu o caminho mais difícil, colocando-se ao lado da verdade, da justiça e dos interesses das populações, manifestando-se contra o processo de aniquilação do poder local.

Foi, aliás, numa dessas assembleias que vi Pinto dos Santos tomar uma posição única em prol da defesa da equidade dos valores culturais municipais. Nos princípios de 2011, e no uso da palavra, pegou num exemplar da monografia de Santa Cruz, subiu ao palanque, lançando uma pergunta incómoda aos presentes: «Como é possível que a CMC tenha apoiado este livro de 6 anos de trabalho com 5.000 euros para impressão, e tenha votado uma verba dispendiosa de centenas de milhares de euros para apoio às comemorações do centenário do SCC?. O que vai ficar dessas comemorações se comparado com este trabalho?».

Os últimos anos da sua vida trouxeram-lhe desgosto e revolta nascidos da participação política activa: primeiro, em 2013, no âmbito das escolhas para a lista candidata à UFC para o ciclo 2013-2017; no pós-eleições, pelas queixas que apresentava, relativamente, aos atropelos das regras de funcionamento da UFC.

Breve biografia

Nasceu a 09/07/1942 no lugar da Pedrulha, freguesia de Santa Cruz (Coimbra) onde passou a infância. Com 18 anos alistou-se como voluntário na Força Aérea. A vida profissional principiou como caixeiro-viajante pela Beira Alta, depois empregado de balcão na Casa das Gabardines, em Coimbra, altura em que tira o curso comercial nocturno.

Como bancário iniciou actividade pelo Banco Sotto Mayor, em Coimbra, transitando para a CGD, onde passou pelas dependências de Cantanhede, Santa Maria da Feira e Coimbra.

Após o 25 de Abril tornou-se sindicalista, vindo a deixar o balcão e a dedicar-se a tempo inteiro ao sindicalismo. Já reformado envolve-se na vida política local, vindo a substituir António Nogueira na presidência da Freguesia de Santa Cruz, por falecimento do mesmo, em Abril de 2003. Desta data e até 2013 Pinto dos Santos presidiu, como eleito pelo PSD, a uma das mais importantes freguesias nacionais, o último em exercício de funções antes do processo de agregação das freguesias citadinas. Faleceu, subitamente, na madrugada de 08/01/2015 vítima de AVC.

(*) Historiador e investigador