Coimbra  20 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Perfis de autarcas

14 de Dezembro 2018

Quando, no final do século passado, iniciei contactos profissionais com autarcas de freguesias e municípios, encontrei uma geração de homens e mulheres que tinham um entendimento da gestão dos interesses locais assente no desenvolvimento colectivo da comunidade, multifacetado e abrangente.

Independentemente da cor política notava-se-lhes, no discurso e na acção, preocupações especiais no fomento ao progresso infraestrutural das suas autarquias: saneamento, água, luz, construir ou melhorar equipamentos colectivos como parques e jardins, dotar escolas de recursos humanos e materiais, manter e disponibilizar serviços de proximidade como farmácias, dependências bancárias, extensões de saúde ou caixas multibanco.

Este perfil de autarca tinha outra característica marcante: a vontade em conhecer mais sobre o seu passado, apostando no estudo dos documentos antigos, promovendo diversas formas de divulgação histórica junto dos seus fregueses, envolvendo-os e chamando-os a participar activamente.

Estes homens, com ou sem formação superior sabiam, claramente, para onde queriam ir, cumprindo um programa político-social reflectido por grupos de trabalho, adicionando experiência, e sancionado nas urnas. Vencedores de batalhas eleitorais mais ou menos difíceis suplantavam opositores com propostas deficitárias ou com grande carga populista e demagógica.

Contudo, e passados quase 20 anos sobre esses tempos de governação local, a maioria desses players das autarquias foi afastada pelo povo ou então preferiu afastar-se por não se rever nas novas formas de fazer política.

Apesar de honrosas excepções, os tempos recentes desenharam um novo perfil de autarca – o populista e demagogo. Com programas simplistas, sem causas ou bandeiras, sem estudos de dossiers ou domínio de instrumentos de gestão do território, seguidistas muitos, de larga visão poucos, gerem as juntas como mercearias, apostando em festas, beberetes e comeretes, aproveitando-se de um povo adormecido, que se deixa ir na onda e na cantiga do bandido.

Sem surpresa, assim se têm torrado milhões de euros de forma efémera, na mão destes novos operários da gestão local, onde o amiguismo vai ganhando a passos largos ao trabalho, ao mérito, à imparcialidade. Dão, de vez em quando, um chouriço ao pessoal e pedem em troca um porco. Para esta gente vale tudo, inclusive hipotecar o futuro das novas gerações.

Estou convicto, pois conheço o caminho que pisam, que alguns destes novos iluminados do poder local não sabem (nem querem saber) da relevância dos órgãos autárquicos a que pertencem, qual o enquadramento legal, a história pela independência face à administração central, ou a relevância da preservação da identidade, história e memória da comunidade.

Aprendeu, no entanto, que ser membro dos órgãos autárquicos, em especial do executivo, dá poder e que o poder é doce e que sendo doce é viciante e por isso há que manter um fluxo ininterrupto de votos para que o vício continue – cedendo em contrapartida a clientelismos, favores e circunstâncias onde o público e privado se confundem no alegre espaço mediático perante o marasmo das autoridades.

É evidente que para além desta realidade negativa sobrevivem bravos do pelotão: novos e velhos autarcas de sangue na guelra, que pensam por si e no interesse das comunidades que representam, que exercem a função gerindo de forma equilibrada a coisa pública, que seguem à risca programas bem desenhados e a contento de todos, procurando alcançar várias áreas de acção: desporto, associativismo, apoio social, educação, cultura, infraestruturas….

Mas é um perfil raro, tão raro quanto encontrar um trevo de quatro folhas.

(*) Historiador e investigador

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