Coimbra  19 de Julho de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Pela esquerda é que vamos

1 de Março 2024

Há quem considere injustificado e ultrapassado catalogar haver ideário de esquerda e de direita, justificando-se com as causas comuns, privilegiando a proximidade entre pessoas e antevendo a civilização futurista.

Na verdade, mesmo que haja boas intenções neste conceito uniforme, além do debate político diferenciar concepções distintas, antagónicas e demasiadas vezes expressas com presunção, acrimónia e insulto, o livro “Política para crianças”, de Mafalda Cordeiro, clarifica que há esquerda e direita, em hipóteses simples, centradas nos direitos humanos, em promoção ou depreciação.

Por vezes, estranhos pontos de vista encontramos. Ver a direita a dizer que devemos baixar os impostos (que é um contributo individual e empresarial para o bem comum), é estultício, quando sabemos que o objectivo é mais enriquecer as grandes empresas (hipermercados, petrolíferas, etc.) através da redução do IRC (do qual as pequenas e médias empresas estão isentos), e oferecer “peanuts” à população que cai no engodo da palavra mágica “impostos!” Ver a esquerda propor subida de salários, contas certas, descida do défice público, Estado social, é regular a sociedade, diminuindo a desigualdade entre iguais seres humanos, não sendo irresponsável nem demagógica politiqueira.

Ao ver a direita a defender calorosamente a saúde, a educação, a habitação, entregando as receitas aos privados e o pagamento da factura ao Estado (que iria penalizar os cidadãos contribuintes) é o cúmulo da estupefacção e do descaramento.

Ver a esquerda gerir o bem público com rigor, transparência e bons resultados (vide o crescimento económico e a melhoria salarial), incentivar a participação da sociedade na melhoria das condições de vida para todas e para todos, ser solidária pelas pessoas e famílias, não é pecado e é transformador.

 

Ser ou não ser

 

Enquanto a esquerda assume os erros, discrepâncias e equívocos como processo a corrigir, a direita prossegue a via na sua sanha ambiciosa, interesseira e sôfrega. E nesta direita, ressurgiram os salazaristas bafientos, os intelectuais santinhos de pau carunchoso, os colonialistas sem complexos de morte, os discursos de ódio saídos do fundo da história.

Ser de esquerda não é crime, mas também não é moda. Em democracia, há direitos, há o direito a ser esquerda, de direita ou do centro, e há o direito a não ser, de pensamento e ideias, de intervenção e de acção.

E há deveres. Há o dever de respeitar os direitos, de quem é de esquerda, de direita ou do centro. E de quem não o quer ser, seja do que for. Há o dever de aceitar a liberdade e a democracia, de cumprir a urbanidade e o decoro, a educação e a convivência, a não discriminação e a humanidade, a não usurpação e o sentido de Estado.

Ser de esquerda não é ter piolhos, sarna ou lepra. Ser de esquerda é ser solidário, ser pelo Estado social, ser humano. Até o PPD (hoje PSD) de Sá Carneiro (e contestatário do regime da ditadura do Estado Novo) defendia o socialismo democrático, enquanto Mário Soares defendia o socialismo de rosto humano e realista.

Pela esquerda é que vamos. Somos socialistas e não encontramos quem faça melhor pelo progresso e desenvolvimento, pelas liberdades fundamentais, pelo direito público à dignidade das condições de vida, pela expressão da solidariedade e da cooperação como interajuda.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra