Coimbra  16 de Junho de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Rui Avelar

Pela boca “morre” Centeno

16 de Fevereiro 2017

Em democracia, a avaliação do desempenho dos agentes políticos (governantes incluídos) não se confina ao domínio da competência técnica. Como esta não basta, quando ocorrem trapalhadas, é confrangedor o exercício de meter os pés pelas mãos. A «morte» política do ministro das Finanças deu-se pela boca.

Quanto daria o chefe do Governo para o ministro das Finanças possuir razoáveis dotes de comunicação? Enfim, Mário Centeno é absolutamente destituído de capacidade de comunicar. Ora, como um mal nunca vem só, essa inépcia põe a nu a sua falta de consistência do ponto de vista político.

Centeno achou que António Domingues, anterior presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), representava mais-valia quanto baste para o administrador poder ser dispensado da obrigatoriedade de entrega de declaração de património ao Tribunal Constitucional.

Tratou-se de um enorme erro de avaliação do governante, a ponto de ter contaminado todo o dossiê da nomeação de novos administradores do banco público, sendo que o erro emerge da natureza de um ministro politicamente inconsistente.

Os gurus da comunicação oficial só tinham um caminho – era Mário Centeno pôr tudo em «pratos limpos», assumir a sua ineficiência, politicamente falando, e rematar com uma saída do género: escreveu-se direito por linhas tortas, fazendo notar que a aspiração de Domingues liderar a CGD sem apresentar declaração de património tinha sido fatal para a respectiva ambição.

Em “Linguagem, verdade e lógica”, o filósofo Alfred Ayer ensinou ser a contradição mais grave do que a falsificação, porquanto a primeira comporta um grau de intencionalidade e a segunda pode ser estritamente fortuita.

Insensível à lógica política e incapaz de enxergar para além da frieza dos números, Mário Centeno deixou-se enredar numa trapalhada, cujo alcance belisca o desempenho do primeiro-ministro e até o do Presidente da República.

A hipocrisia inerente à manutenção em funções do ministro das Finanças é proporcional ao cinismo dos omnipresntes mercados.

Ouvido António Costa, o PR deu aval à decisão do chefe do Governo no sentido de reiterar a sua confiança no ministro das Finanças. Se a tivesse retirado, em vez de a reiterar, Costa teria rompido com a panaceia dos «paninhos quentes»; assim, incorreu num erro de avaliação idêntico ao cometido por Centeno em relação a Domingues.

Numa trapalhada deste quilate, até Marcelo Rebelo de Sousa protagoniza uma escorregadela ao dizer que o seu aval tem presente o “estrito interesse nacional, em termos de estabilidade financeira”.

Mal de nós quando se invoca o superior interesse nacional, assente na necessidade de não sobressaltar os omnipresentes mercados, para contornar uma mentira. Seria bem melhor se qualquer agente político tivesse sempre presente que, tal como a mentira, a contradição possui perna curta.