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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Pedrógão – um ano depois: Que a vergonha nunca acabe

17 de Junho 2018

Cumpre-se hoje um ano sobre a maior tragédia florestal nacional. Foi um dia que amanheceu estranho e abafado, com nuvens grossas a crescerem pelo interior, ameaçando trovoada. Aos poucos, o fumo de incêndio fora de época toldou o céu de escuridão e foi noite antecipada. Porém, ninguém imaginava o que estava para acontecer.

Quando ao princípio da noite fatídica algumas mensagens de operacionais no sinistro começaram a invadir o meu chat de Facebook e o telemóvel, transmitindo-me o desnorte, o pânico e caos instalado comecei a olhar de forma diferente para o que estava a acontecer.

Conhecedor de vários estudos que apontavam para uma tragédia desta natureza na floresta nacional, mais dia menos dia e pelas razões de todos conhecidas, recordado das tragédias de Armamar (1985) Águeda (1986) e Mortágua (2005), receoso dos lobbies envolvidos no negócio do fogo, dos nomeados para cargos de responsabilidade sem habilitações ou qualificações – cedo ganhei a consciência que poderíamos estar perante um drama sem precedentes.

Naquele momento patético em que a Ministra da Administração Interna apareceu a dizer qualquer coisinha, muito depois do seu Secretário de Estado se ter submetido às primeiras ondas de choque, dissiparam-se todas as dúvidas. Mais do que uma tragédia florestal evidenciava-se o colapso das estruturas, materiais e imateriais, físicas e espirituais, políticas e operacionais. A nossa protecção civil desmoronava como um baralho de cartas.

Pior do que a morte de inocentes, custou-me, sobremaneira, o despudor de certos artistas, que procuraram fazer da miséria humana um mal menor e desculpar erros com os erros de outros. Naquele momento, em que se exigia liderança, solidariedade e responsabilidade foram vulgares e só pensaram em si: na carreira, no dinheiro, no prestígio e, imagine-se, no protagonismo.

Quando nas televisões o sensacionalismo ultrapassou a humanidade e choveram imagens dos corpos tombados no holocausto, não pude deixar de reflectir no sentido da conhecida frase de Horace Walpole: «A vida é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem». Nada mais apropriado para o momento em que Portugal mostrava visceralmente a profunda divisão entre teóricos e práticos, gabinete e terreno, estudos e medidas, experiência e falta dela.

Acredito que o país tenha aprendido alguma coisa com o que aconteceu. Mas tenho dúvidas que esteja preparado para enfrentar uma situação semelhante, que mais dia menos dia, voltará a ocorrer, pois a floresta continua abandonada e só algumas casas estão hoje melhor defendidas por força de um normativo que mexe no mais sagrado dos portugueses: a bolsa.

Precisamos de um pacto de regime sobre a matéria. Necessitamos de leis duras para os criminosos. Queremos uma floresta ordenada e limpa. E o fim do negócio do fogo e da vida.

Mas acima de tudo que a vergonha se mantenha o tempo suficiente no horizonte de quem nos governa, para que outro país se reconstrua em memória daqueles que há um ano querendo viver acabaram por perecer, pela falha global de um Estado – que teima em perpetuar a hipocrisia, ironia e contradição sobre a matéria dos incêndios florestais em solo nacional.

(*) Historiador e investigador

 

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