Coimbra  25 de Janeiro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cândido Ferreira

Paulo Quintela e tantos mais…

26 de Dezembro 2019

A cada passo deparamos com escribas que não hesitam em trocar o seu dever de obediência à isenção e à verdade, pela submissão a interesses pessoais ou às tribos que os suportam. Quantas vezes não assistimos mesmo a tentativas de reescrever a História e de apagar heróis?

Na sequência de um testemunho recentemente publicado por este Semanário, a propósito do 25 de Novembro de 1975, entendo dever precisar a memória da resistência antifascista de Coimbra, com melhor contributo. Até por que, do lado certo da História, esse foi o dia em que se evitou um “banho de sangue”, quiçá uma dolorosa guerra civil, e se abriram condições para implementar um regime democrático, e um modelo social e económico, de acordo com a vontade da esmagadora maioria dos portugueses. Trata-se pois de uma data de que o PS se deve orgulhar, mas que este ano foi muito maltratada por uma República que navega sem rota nem rumo, por entre o nevoeiro.

Como supunha, a única reacção a essa minha narrativa factual e indesmentível, só podia partir do meu amigo Luís Santarino, que me questionou a primazia do primeiro militante do PS, da cidade de Coimbra. As minhas “divergências” com Luís Santarino arrastam-se de longe, mais concretamente desde 1960, quando eu era o N.º 9 e ele o N.º 32 da turma D, no 1.º ano do Liceu Normal de D. João III. Aí firmámos uma amizade indestrutível e, como sempre aconteceu, também desta vez acertámos as nossas contas em segundos. Dessa nossa conversa ficou-me, no entanto, o travo de não ter contado “tudo certinho”.

Frequentada por inúmeros aderentes, a sede do PS de Coimbra abriu no início de Maio de 1974, por iniciativa de António Campos, que aí pretendia instalar uma corporativa livreira, disfarce para actividades clandestinas. E só algumas semanas depois chegaram de Lisboa as fichas de adesão, que logo geraram sururu, com dezenas de apoiantes a disputar os primeiros lugares. E foi aí que eu próprio impus serenidade, gizando uma ordenação consensual entre os presentes: para militante nº. 1 reservou-se a figura austera do Prof. Paulo Quintela, tendo sido destinado o segundo lugar ao popular Prof. Fernandes Martins.

E só assim podia ser. Com os dirigentes históricos do PS fora da corrida, por não residirem em Coimbra, e com Miguel Torga indisponível, Paulo Quintela era um ícone da luta antifascista, uma referência incontornável cuja progressão académica fora travada pelo seu corajoso (des)alinhamento político. Recordo apenas dois momentos “épicos”: a sua entrada triunfal na AAC, em 1969, a encabeçar a delegação de professores antifascistas que “desceu” da Universidade a encorajar os estudantes em luta; e a sua intervenção no Teatro Avenida, pela exibição da peça “Insulto ao Público”.

Na execução dessa vontade colectiva, prontamente abordei Paulo Quintela que logo recusou tal honraria. Mais tarde sim, quando a poeira assentasse, mas nesse momento, ponto final, ainda não se queria filiar:

– Em boa verdade, nem devo ser eu a inscrever-me no PS, mas sim o PS é que devia inscrever-se em mim. – … – Assim me confiou ao seu estilo e assim ficámos, nessa tarde, ainda mais próximos até ao fim da sua vida.

Como se compreende, deveria ter sido Mário Soares, e não eu, a endereçar o convite. Seguindo naturalmente a ordenação, também de Fernandes Martins obtive uma resposta à altura dos seus “pergaminhos”:

– Deixa-te de merdas. Vai tu para os cornos do touro, que isto precisa é de forcados novos.

No meio desta lufa-lufa, quando à noite cheguei à sede com as “novidades”, já os boletins de inscrição se reproduziam e se amontoavam na secretária do funcionário do PS, um profissional livreiro que, inicialmente destinado à “corporativa”, acabaria por se tornar funcionário administrativo da nova sede.

Missão falhada a que então me propus, numa Coimbra que vivia à sombra de uma Escola que sacrificara alguns dos seus melhores, socialistas ou não: entre outros, só na Faculdade que frequentei, relembro Nunes Vicente, Lousã Henriques, Bruto da Costa e Santana Maia, entre outros nomes emblemáticos a quem a cidade e a Universidade de Coimbra nunca reconheceram a verdadeira dimensão.

E não será já tempo de acertarmos as contas com a História?

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com