Coimbra  12 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

Pântanos

26 de Maio 2023

As águas do Mondego são uma bênção mas também um desafio. O Convento de Santa Clara-a-Velha, abandonado pelas freiras no século XVI depois de alagamentos provocados pelas cheias, é um bom exemplo de como más escolhas humanas acabam normalmente derrotadas pela força dos elementos. Já o Choupal é um magnífico exemplo de transformação de um problema num recurso valioso. A mata, que começou por ser plantada em finais do século XVIII, cumpriu o seu propósito inicial – o rio ganhou margens mais definidas – e como bónus a região ganhou uma área de lazer privilegiada.

A relação com as águas nem sempre é fácil e em Bruxelas a água é tanta que durante muito tempo a cidade se afadigou em fazê-la desaparecer. Ao longo dos últimos 150 anos, os diversos cursos de água foram sendo metodicamente enterrados e escondidos, convertendo rios e ribeiras naturais em rede de esgotos. O mais notável deste empreendimentos é o controlo do rio Senne, que atravessa a cidade de Bruxelas ao longo de 14km, a maior parte dos quais debaixo da terra! O rio corre não aos nossos pés mas debaixo deles, através de um extenso túnel. Começa agora a prever-se um progressivo “desenterramento” do rio Senne ao longo dos próximos anos – não em toda a sua extensão, mas pelo menos em parte, devolvendo aos bruxelenses, aqui e ali, este valioso elemento natural. Por agora, o convívio com o rio fica limitado ao canal, que, sendo melhor que nada, não deixa de ser uma construção artificial, sendo algo triste ver passar uma espécie de curso de água afunilado entre altas paredes de betão. Escondida parte da água debaixo da terra, resta a água que cai copiosamente do céu ao longo do ano. Não admira por isso que o nome da cidade tenha sido Broeksel, derivando da combinação de duas palavras de origem germânica que significam algo como “pântano” e “estar assente”. Ou seja, aquela que é hoje uma capital europeia terá começado por ser um ajuntamento numa área pantanosa.

Este começo pode parecer pouco auspicioso, mas na verdade também em Coimbra não faltam zonas pantanosas, embora passem por vezes despercebidas a quem vive embrenhado na selva urbana. As zonas húmidas são espaços preciosos e há muito que a comunidade internacional o reconhece. A Convenção sobre Zonas Húmidas, adoptada na cidade iraniana de Ramsar em 1975, foi um passo importante, a nível internacional, para valorizar e proteger zonas pantanosas, nomeadamente através da criação de reservas naturais. Desde a sua ratificação, em 1980, Portugal tem vindo a designar zonas húmidas do nosso país para a Lista de Zonas Húmidas de Importância Internacional. Olhando à lista, nela encontramos cerca de 2200 sítios de importância internacional, entre eles o estuário do Mondego. Mas o meu destaque vai para o paul de Arzila, filho da Ribeira da Cernache, situado nos concelhos de Coimbra, Condeixa e Montemor-o-Velho. Quem não gosta de saber que há um santuário de biodiversidade, protegido mas visitável, tão perto de casa?