Coimbra  18 de Janeiro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Os tecnocratas e os humanistas

30 de Novembro 2020

Mais uma polémica está instalada na sociedade portuguesa, a propósito do plano de vacinação anti-COVID, centrada na temporalidade da elaboração do referido plano e na (eventual) exclusão dos idosos com mais de 75 anos sem patologia considerada grave quanto à condição de grupo prioritário da vacinação.

No conceito da OMS, passemos ao lado do facto de a terceira idade ser considerada a partir dos 65 anos (face ao adiamento de aposentação dos 60 para os 65 anos e mais), a quarta idade ser considerada a partir dos 80 anos, aos 75 anos ser-se considerado ancião e a partir dos 90 ser designada velhice extrema.

Nesta classificação, que pretende objurgar as “fake news”, não está implícito que seja desvalorizado o valor e o direito à vida, a partir de qualquer idade; pelo contrário, a promoção do envelhecimento ativo e saudável traduz preocupação e medidas concretas que os governos devem tomar, para assegurar a qualidade de vida e manter a dignidade do ser humano.

Os tecnocratas são indivíduos de formação técnica (muitas vezes confundida com estritamente científica), que privilegiam a sua formação e a burocracia radical, conflituando (quiçá com laivos de misantropia) com os humanistas, que são defensores das razões sociais e humanitárias como prioridade e sentimento laudatório.

A União Europeia indicou aos Países membros, em Outubro passado, que elaborassem os seus planos de vacinação anti-COVID no prazo de um mês, o que foi cumprido por uma boa parte dos Países que se destacam pela capacidade organizativa.

Em Portugal, apenas na semana passada, foi nomeado o responsável pela comissão “técnica” da vacinação (curiosamente, não foi um profissional de saúde mas um gestor com emprego na saúde), que apresentará o plano na segunda quinzena de Dezembro (disse), portanto fora da caixa padrão europeu, e há quem considere que devemos esperar (sentados?) pelas indicações da indústria farmacêutica, o que não é o mesmo que obter o aval das agências norte-americana e europeia do medicamento, isentas de promoção comercial e avalizadoras dos estudos científicos e sua idoneidade.

Embora alguém diga que o “trabalho” sobre este plano de vacinação vem de longe (reconheça-se o trabalho, nem sempre a adequação e a competência), também não ignoramos que, aqui à beira-mar plantados, há quem perfilhe o lema “não deixes para hoje, o que podes fazer amanhã…”.

Assim, se estamos à espera de toda a evidência científica sem dúvidas e contradições, como é apanágio em situação normal não pandémica, teremos de esperar dez anos (aproximadamente) para ter vacinas anti-COVID com a eficácia e a segurança pretendidas para todas as faixas etárias e, mesmo assim, nunca garantindo 100%, por não ser a Medicina uma ciência exacta (nunca será Matemática).

Relembrem-se as contradições (até de autoridades de saúde e governação sectorial) quanto ao uso de máscara (falsa segurança e prejuízo), à aerossolização do vírus (sim e não), à capacidade de indução de patologia (era uma gripe…), à capacidade de propagação do vírus (ficaria limitado à China…), aos equipamentos de protecção individual (ignorando protocolos, fui aconselhado a “poupar” em exercício profissional).

A exclusão dos idosos com mais de 75 anos, não institucionalizados, sem patologia grave subjacente (que seja conhecida, pois terão todos feito ecocardiograma e angiografia coronária?), como um dos grupos prioritários da vacinação anti-COVID, é um atentado ao bom senso em saúde comunitária, ao controlo da ansiedade em saúde da família, à valorização do humanismo, à realidade da mortalidade por grupo etário e à promoção da saúde como direito de todos.

Não venham os comentadores de tudo o que mexe porque tudo “sabem”, os professores daquilo que teorizam e que nunca praticaram, os gestores com emprego confundindo-se com profissão, os dirigentes políticos porque está tudo mal ou tudo bem conforme a conveniência do cargo, função ou ideação, tentar confundir as pessoas, iludir os incautos e presumir “só sei que tudo sei” e “quando um burro fala os outros baixam as orelhas”, na sua jactância e pedantice.

Louve-se quem o merece. O primeiro ministro António Costa esteve muito bem, quando fez a apologia da vida, com palavras simples e diretas, não aceitando que os idosos com mais de 75 anos sem patologia considerada grave e não institucionalizados não sejam um grupo prioritário da vacinação anti-COVID.

É um humanista por convicção, respeitou a ciência sem dogmas, colocou os tecnocratas no seu lugar, desmistificou “quintas” e quintarolas, dignificou a política que tão depauperada está.

Quanto a nós, não prezamos a tecnocracia. Embora sendo aptidão e procurando a sustentabilidade, não promove simultaneamente a vida e o humanismo que cuida dos mais fragilizados, protege as populações de risco e os grupos vulneráveis, pratica a medicina solidária e se dedica à saúde para todos.

(*) Médico e deputado do PS na Assembleia Municipal de Coimbra