Coimbra  24 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Os novos sabichões

11 de Junho 2021

Sabichão é aquele que sabe muito ou… que se gaba de saber muito. É um doutoraço que lhe alimenta o ego, ou um mestraço que se credita em áreas que lhe dão alacridade e talvez vénia, ou pelo menos um letrudo que tem o poder de ter público.

Os novos sabichões adquiriram o conhecimento empírico, facilitado pelas modernas tecnologias e actualizações que dominam a seu bel-prazer, e falam em nome do povo, aquele povo que é desvalorizado na sua experiência e nas suas necessidades de vida, que não no seu poder eleitoral.

O cidadão tem a ousadia de reivindicar a prevenção das quedas e da fractura do colo do fémur, os passeios e caminhadas sem carcaças de automóveis ou cobras, o gosto pessoal da estética que outros exigem como seu domínio em nome da lei e da grei, a fruição do sol e da água sem mandamentos fundamentalistas, a arquitectura e engenharia sem quotas nem cotas absolutistas, a saúde sem ouvir (ex?!)políticos a perorar como se fossem cientistas, a educação em condições de igualdade sem elitismo para predestinados, a habitação sem duplex mas com conforto e dignidade.

O cidadão até aspira a que os seus filhos estudem música, façam ballet, tenham ensino bilingue, sejam expoentes no desporto e na competição, tenham futuro nas novas profissões, sejam doutores no senso e na ciência, sejam afectivos na história, na memória e na família, não se desviem do caminho do sucesso sem perdição.

Os cidadãos até se organizam em movimentos que fortalecem a democracia representativa, criando e participando em comissões de moradores mais do que condomínios, criando e participando em múltiplas associações que desempenham acção social, promoção de direitos humanos ou garantia de qualidade de vida, criando e participando em movimentos de opinião que os lutadores pela liberdade e pela instauração da democracia hoje esquecidos lhe proporcionaram (e ainda bem), elaborando projectos comunitários e estilos de vida que mobilizam a biocenose.

Propositadamente e sem inocência, os novos sabichões trocam a Estrada da Beira pela beira da estrada, querem meter a praça do Rossio na rua da Betesga ou a praça da República no burgo intelectualóide, confundem a cidadania com slogans de ocasião, com palavras ocas de suposta rebelião, com parangonas de objectivos comuns à procura de conjecturados dividendos eleitorais.

E descobrem a política e os panfletos, a economia e o economês, os transportes e a mobilidade “sustentável”, o ambiente e espaços verdes, a fiscalidade e a responsabilidade social, como se nunca tivessem existido per saecula saecolorum e fossem eles os inventores da capa negra e rosa negra sem contributo para a liberdade.

Maria de Lurdes Pintasilgo dizia que o político que aceita a sacralização só se ama a si mesmo, e reclamava a exigência de mais democracia participativa, onde a consciência de cada cidadão, livre da sacralização que o esmagava, podia emergir em plena liberdade.

Onde estavam os novos sabichões quando se deu a revolta da natureza e os confrontos de poderes, quando foi preciso conquistar a liberdade, quando na sociedade foi preciso transformar a cidadania em Desenvolvimento, quando foi preciso lutar pela igualdade, cuidar dos desfavorecidos e dos grupos vulneráveis e de risco social, promover a equidade e assegurar os direitos humanos?

(*) Médico