Coimbra  25 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Os jejuns e as abstinências

7 de Maio 2019
Indian Muslim devotees offer Friday prayers at the Vasi Ullah mosque on the first Friday of Ramadan in Allahabad on July 4, 2014. Across the Muslim world, the faithful fast from dawn to dusk, and abstain from eating, drinking, smoking and having sex during the Ramadan as they strive to be more pious and charitable. AFP PHOTO/ SANJAY KANOJIA

AFP PHOTO/ SANJAY KANOJIA

 

Os muçulmanos estão a celebrar, desde ontem, estendendo-se até 04 de Junho, o ramadão ou ramadan (em árabe).

A palavra, segundo pesquisa, está relacionada com ramida (ser ardente), isto pelo facto de o islão ter celebrado essa festa, e pela 1.ª vez, num período mais quente do ano.

O ramadão, em tempo e contexto diferente, pode assemelhar-se à Quaresma dos cristãos, um espaço de 40 dias em que se prepara a festa da Páscoa, de Jesus Cristo.

Ramadão é símbolo de renovação da fé, prática de caridade e vivência da fraternidade. E, entre o nascer e o pôr-do-sol, os muçulmanos não podem alimentar-se.

Também são chamados, neste espaço de tempo, a ler mais o Corão, a ter maior frequência da oração e presença nas mesquitas. Mas pede-se a estes fiéis que se abstenham de práticas sexuais.

Também, e na Quaresma, se motivam os cristãos a fazer jejum e abstinência sobre o que mais lhes agrada. A Quaresma é, ainda, um tempo de renovação interior, de oposição ao que mais nos dá prazer e ao incitamento a não provocarmos o que, nas Escrituras ou no Corão, pode ser entendido como pecado.

As religiões querem sacrifícios. Na era de Jesus Cristo e de Alá sacrificavam-se os cordeiros em louvores.

Mas estes jejuns são uma forma de, cada um de nós, os crentes, sejamos de que religião decidimos pertencer, tentar incutir em nós regras ao corpo e ao espírito, capazes de nos fazerem mais fortes e, interiormente, preparados para os desafios da alma e do coração.

Mas os jejuns não nos limpam. Mas os jejuns não nos curam.

Os jejuns podem dar-nos uma nova visão da prática da fé e da nossa dimensão espiritual. A abstinência é outra forma de nos refrearmos, de nos sentirmos gente com normas e de conseguirmos entender se nos excedemos nalgumas das práticas que fazem parte integrante da vida. Por vezes, uma ou outra extrapolação do que é admitido como o mais correcto, pode fazer-nos abraçar uma outra dinâmica do amor, o que temos por nós e o que damos a alguém ou aos que estimamos, re-alimentando-o e rejuvenescendo-o.

Mas, e muitos muçulmanos e cristãos, depois de um e de outro período de penitência, acabam por se deixar cair em pecado. Somos pessoas…
Os muçulmanos, por que o Corão tem regras mais apertadas para um ser humano, escondem-se para poderem beber, fumar e realizar sonhos que não lhes são permitidos, porque pecados mortais. Como se o homem, porque humano, não tivesse a tentação de pecar…e se não pudesse fazer o que mais o fizer feliz, mesmo sabendo que está a prevaricar, espiritualmente.

Queremos ser perfeitos, mas estamos no caminho, num deles, para tentar lá chegar.

Estes tempos de jejuns e abstinências têm vindo a diluir-se, porque os tempos são bem outros. Não será, e por isso, que Deus e Alá nos vão deixar de amar.