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Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Os 100 dias de Rui Rio e o “abraço de urso”

30 de Abril 2018

Habilidoso, António Costa resolveu seduzir Rui Rio, num “abraço de urso” em nome dos superiores interesses do país.
O PSD é um partido herdeiro da dignidade ética da democracia, dos interesses das pessoas e das suas necessidades, que, sem romantismos, mas com inigualável sentido prático, foi capaz de transversalizar a sociedade portuguesa.
E fê-lo, sempre, com propostas concretas e realistas, que deixam aos portugueses a oportunidade de escolher, sem dificuldades, os caminhos que querem trilhar até ao futuro. E não é por acaso que o PSD é um partido de poder e que ganhou as duas últimas eleições legislativas.
Pesada é, portanto, a herança de Rui Rio (RR), que herda um partido ambicioso, com projectos políticos renovados, sempre com diferentes compromissos de responsabilidade política, unidos pela prossecução do bem comum e do interesse público.
Será esta, julgo, a razão do desafio lançado por RR, visando a construção de um Programa de Governo, alternativo ao da «geringonça», sustentado em projectos e propostas focadas, sobretudo, no crescimento ao serviço do desenvolvimento económico, nos sectores sociais
vulneráveis e na classe média, na inovação e desenvolvimento, no mar, na educação, na justiça, na cultura, etc., que será desenhado por um grupo heterogéneo de especialistas nos vários sectores.
Porém, para se ter êxito é preciso ler de forma inteligente o actual e complexo contexto político, sabendo equilibrar o curto prazo com o médio/longo prazo, para poder fazer desse Programa de Governo um estimulante projecto para Portugal.
Já passaram 100 dias de RR debaixo do tempo político. É muito? É pouco? Tudo depende do que vai acontecer depois da mudança que RR irá fazer.
Tenho para mim, que esse espaço a preencher por RR vai pôr acento tónico num PSD que rejeita por palavras, obras e omissões caminhar até às eleições legislativas como partido supletivo do PS.
Bem pelo contrário. Vamos ver um PSD, de RR, com uma agenda adversarial e interpelante, própria de um partido de poder, como ele é, onde as ideias de RR para Portugal e para os seus cidadãos chegam aos destinatários sem quaisquer distorções através da sua presença e da sua fala.
Aliás, liberto que está das condicionantes, que existiram, infelizmente, relacionadas com os seus mais próximos, tem agora céu limpo para se fazer à estrada ao encontro do país real, num contexto politicamente desafiante.
Não é preciso consultar os astros para perceber que há, no ambiente político, sinais objectivos a indiciar mudanças de rumo do PS.
Os seus tempos de namoro embevecido com o PCP e com o BE estão para trás. Abalados. A romper.
A tensão sobe e com ela agudiza-se a retórica política entre eles.
O PCP vai estar, cada vez mais, na rua a querer ser ouvido e a sacudir responsabilidades em soluções políticas que o possam comprometer.
O BE, ainda que envergonhadamente, vai fazendo pela vida, dando uma no prego outra na ferradura.
O PS sente a tremular no horizonte a maioria absoluta, que já dava como adquirida nas próximas eleições legislativas, e guinou ao Centro.
O “despesismo” dos seus companheiros de viagem, que pode entortar as contas, pôs os sinos a tocar e a olhar para os compromissos de Bruxelas, de que também querem ser fiéis devotos.
Ir atrás desses devaneios políticos dos seus companheiros de viagem na «gerigonça» iria pôr a nu a verdade da situação, que se traduz numa austeridade dissimulada ao som dos impostos indirectos, das reposições e cativações, que tiveram um record em 2016.
Estas últimas, aliás, estão a provocar um verdadeiro tsunami em serviços fundamentais do Estado, de que é expressivo exemplo a área da saúde, onde a situação atingiu uma chocante indignidade e insensibilidade sociais.

Encostado, ainda, à parede em outras áreas sensíveis, onde nem tudo são rosas, como acontece com o desinvestimento público, que passou todas as marcas, e colocado perante os crescentes movimentos de descontentamento social, que começam a aparecer, bem traduzidos nas últimas sondagens, António Costa, habilidoso, resolveu seduzir Rui Rio, num “abraço de urso” em nome dos superiores interesses do país.
Genuíno como RR é, e comprometido até ao tutano com os interesses de Portugal, não foi, por isso, difícil convencê-lo a ir atrás do “canto da sereia”, mesmo que a sua assinatura, nesses acordos, deixe por resolver muitas questões, que estão nas linhas e entrelinhas dos importantes e já famosos documentos.
O charme do PS, sempre exemplarmente mediatizado, lá levou a água ao moinho dos seus interesses, dando, com esses acordos, os passos para tentar entrar mais no Centro político, onde habita muito da nossa classe média, que está sempre à espera de “bons casamentos”.
Ora, cada foto, cada sorriso, cada aperto de mão, cada subida de escadas lado a lado em S. Bento, podem significar perda de eleitores e de espaço eleitoral para o PSD, que não se deve deixar enredar numa situação onde as diferenças entre o PSD e o PS possam ser pouco apelativas à mudança.
Daí que estes movimentos no xadrez político podem dar origem a duas realidades. A primeira é anestesiar a dinâmica do PSD e dos seus simpatizantes, amolecendo um projecto alternativo, que se quer simples, com as respostas certas para os problemas e que tem de saber entusiasmar, pela diferença, todos os que não se revêem nesta maneira, de verdadeiro circo mediático, de o PS fazer política, e querem impedir o Partido Socialista de manter-se no poder com ou sem coligações. A segunda é obrigar o PCP e o BE a reforçar o seu ideológico “cordão sanitário”, evidenciando, cada vez mais, em todas as oportunidades e nos movimentos de rua, aquilo que os separa do PS,
marcando bem as suas origens e os diferentes interesses, que defendem, para não se fragilizarem mais eleitoralmente.
Neste horizonte, que temos pela frente, onde já entramos em campanha eleitoral, será preciso, aos eleitores, saber distinguir o trigo do joio e o alcance de todas as promessas que possam ou não melhorar a vida dos portugueses, fundadas em programas sérios com propostas positivas, onde os cidadãos se revejam e sintam que eles e os seus filhos são os seus verdadeiros destinatários.
Vem aí muito trabalho para mudar as velhas fórmulas de fazer política. Mas a coesão social, onde há tanto por fazer, bem merece esse esforço.
E no fim que ganhe quem tiver mais votos… no Parlamento.

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