Coimbra  18 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Jorge F. Seabra

Olho o jornal e há problemas com as Maternidades…

24 de Junho 2019

Olho o jornal e a toda a largura da primeira página vem um aviso sério: “Hospitais de Lisboa vão fechar urgências para grávidas no Verão”.

Depois de anos de “modernização” e “aperfeiçoamento” do SNS, com fechos, fusões, restruturações e “gestão empresarial”, as coisas acabam neste triste destino: o desastre do regresso às mais tristes memórias de um passado longínquo que há muito julgávamos vencido.

Talvez ainda se lembrem que uma das quatro unidades agora citadas na notícia, a Maternidade Alfredo da Costa, ainda há pouco esteve para ser encerrada (como aconteceu a outras, no país) e só se salvou devido à mobilização popular e à resiliência dos seus dedicados profissionais.

Em Coimbra também as duas maternidades precisam de cuidados intensivos imediatos para manterem as portas abertas enquanto se constrói uma solução de futuro. Necessitam de equipamento e de sangue novo que garantam a continuidade geracional e os serviços diferenciados que têm prestado à cidade e à região. Pelo menos até à construção de novas instalações de raiz, com a qualidade funcional e de hotelaria que é exigível num país como o nosso, onde se emprestam mil milhões de euros a um chico-esperto para especular em acções da banca e a que se acrescenta, como prémio por não pagar o que deve, mais quarenta e cinco milhões em benefícios fiscais, verba que, só por si, daria para uma nova Maternidade em Coimbra.

De resto, a sua construção constitui, simultaneamente, uma necessidade e uma oportunidade.

A necessidade é consensual e urgente, embora a resposta demore.

Quanto à oportunidade, ela existe e poderia recuperar muito do que se perdeu nestes últimos anos, se a nova Maternidade for edificada junto ao Hospital dos Covões, reconstruindo-o também como o hospital central com as especialidades e valências que já teve, aproveitando os terrenos disponíveis e as diversas sinergias do polo de saúde existente na margem sul, descongestionando a superpovoada e engarrafada área dos HUC, cuja “cerca” já não suporta mais nenhuma construção sem agravar enormemente todos os problemas.

A não ser assim, aprofunda-se todo o caos provocado pela desastrosa “fusão” do Centro Hospitalar de Coimbra e das suas unidades hospitalares com os HUC.

É essa evidência que mobiliza profissionais, cidadãos, movimentos cívicos, poderes autárquicos e estruturas locais de partidos políticos (PS, PCP e BE) no sentido de evitar a asneira anunciada de implantar a nova Maternidade num canto restante e apertado dos HUC.

Há mais de uma década ainda chamavam a Coimbra “Capital da Saúde”. Talvez houvesse algum pedantismo no título, mas a verdade é que as suas diversas unidades hospitalares públicas tinham inúmeros serviços de excelência procurados como “ultima linha” para patologias complexas, por cidadãos de todas as regiões do país.

Podemos dizer que isso ainda acontece. É verdade. Mas cada vez menos. E em piores condições. A oferta encolheu em quantidade e qualidade no serviço público. Talvez de forma ainda mais acentuada do que no resto do país.

É preciso reverter esse processo. A construção de uma nova e moderna Maternidade junto a um Hospital dos Covões requalificado seria um importante passo nesse sentido.

Médico

 

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