Coimbra  24 de Novembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Teresa Portugal

Oiça lá, Sr.ª Ursula von der Leien!

17 de Abril 2020

Há vozes que nos incomodam. Numa “aparente” medida de protecção sanitária, dirigida à população mais velha, ouvimos, recentemente, que poderia ter de ficar em confinamento até final do ano.

Aprendi com a minha avó que “há coisas que, ainda que se pensem, não se dizem”! Significa isto que a autora dessas declarações não consegue entender as terríveis consequências das suas palavras. Costuma falar e ouvir falar de números, estatísticas, burocracias frias e sem rosto e já não sabe que são pessoas o alvo desta barbaridade.

Pessoas que podem estar frágeis, carentes de afectos, longe dos mais próximos, mas também tantas outras que, com a mesma idade, estão enérgicas, com todas as faculdades activas, com vidas bem preenchidas e úteis à família e à comunidade. Umas e outras têm coração e têm sentimentos e não gostam nem aceitam que as ameacem de isolamento.
Sou uma dessas pessoas e venho dizer-lhe que a sua aberrante declaração me deu maior consciência de como foram velhas as pessoas que marcaram a minha vida de 80 anos.

A inestimável avó Clementina que, não sendo avó, era assim tratada por toda a gente. Vestia como uma sufragista, usava sempre guarda-chuva, de Inverno ou Verão, já que lhe era útil nas suas caminhadas de distribuição do jornal republicano da terra. E o invejável médico Dr. Eugénio, já com 80 anos, que cumpria as suas visitas médicas a cavalo pela serra acima, fizesse sol ou fizesse chuva. Chegasse quando chegasse, ele havia de sentar-se ao piano e encantar-nos com a “Marselhesa”.

Houve mais, como por exemplo, a Tia Carmo que conhecia bem os melhores escritores e poetas e sabia, como ninguém, atrair-nos para esse mundo da literatura. Houve ainda outros que guardo no coração como parte integrante de mim, do meu carácter, das minhas inclinações ideológicas, estéticas ou outras.

Nunca os esqueci, mas agradeço-lhe ter-me ajudado a fazer este balanço essencial à minha formação pessoal. Aos seus ensinamentos, à sua sabedoria, à sua afectividade, ao seu envelhecimento útil, activo e qualificado devo a capacidade de lhe dirigir estas palavras.

(*) Ex-vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra