Coimbra  23 de Abril de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Sandra Simões

Obrigado SNS! Obrigado a todos os doentes e familiares!

2 de Março 2021

Com o abrandar da terceira vaga da pandemia, deveremos reflectir sobre o se passou neste último ano e o que aprendemos com todos os desafios que enfrentámos. Em consciência e sem nenhuma demagogia destacamos o desempenho do Serviço Nacional de Saúde (SNS), delapidado desde há vários anos, quer em valor material e humano quer, também, na acessibilidade dos seus doentes.

Foram semanas e meses muito angustiantes, particularmente após o Natal, em que estivemos no centro de um furacão, como nunca tínhamos enfrentado antes: Doentes graves num serviço de urgência dimensionado para uma afluência muito menor, ausência de vagas em enfermarias onde pudessem ficar internados, enfermarias transformadas em Unidades de Cuidados Intermédios, estas, por sua vez, transformadas em Unidades de Cuidados Intensivos e sempre lotadas. Semanas e meses confrontados com a necessidade de mais espaço, que foi tardando em surgir, e a necessidade de encontrar alternativas ao internamento hospitalar que também demoraram.

Um tempo extremamente exigente que pareceu uma eternidade: Profissionais a desenvolver as suas capacidades em cada dia ao limite, de forma a conseguirem tratar bem os doentes, e o reforço das equipas sempre a ser protelado, quando “ontem já era tarde”. Foi preciso assistir, diariamente, na comunicação social a filas intermináveis de ambulâncias para que houvesse encaminhamento dos doentes para outras unidades hospitalares, porque as inicialmente designadas já não tinham capacidade para receber mais doentes. Ficou também patente que o esforço nesta luta não foi igualmente distribuído. Não sei se enfrentámos um cenário de guerra, felizmente no nosso tempo nunca assistimos a qualquer conflito no nosso território, mas, se foi, não sei onde estiveram os generais pois nunca os vimos nas trincheiras.

Acima de tudo destacamos a resiliência e abnegação dos doentes, os verdadeiros heróis desta pandemia. Foram muitos, muito graves, foram confrontados com serviços de saúde no limite, que por pouco não se desmoronou. Passaram horas dentro de ambulâncias para serem assistidos, ficaram dias e noites em cadeiras e cadeirões em serviços de urgência, sem vagas no internamento ou macas, ombro a ombro com outros doentes, com os quais dividiram as garrafas de oxigénio. Aguardaram serenamente por uma cama que tardava em ficar disponível e nunca se revoltaram.

Aceitaram ficar internados em Enfermarias com outras dez pessoas, sem privacidade, sem ventilação que não fosse uma janela fechada, e às vezes sem janela, sem casa de banho onde pudessem fazer a sua higiene básica e, ainda assim, não se revoltaram. Estes foram os verdadeiros heróis desta guerra que merecem ser enaltecidos.

Espero que tenham percebido que é dos profissionais de saúde que é feito o SNS. E não de outros grupos que pululam os corredores “não clínicos” dos hospitais. Os profissionais de saúde não podem apenas ser valorizados quando há crises sanitárias desta dimensão. Merecem e têm de ser valorizados no dia-a-dia. São eles que mantêm as instituições vivas, com capacidade de evoluir e dar resposta aos desafios de todos os dias e ainda a todas as excepções. Eles é que são verdadeiramente excepcionais e não deixaram desabar o SNS.

A todos os doentes e familiares de doentes que sabem reconhecer o que foi feito por todos eles, o nosso OBRIGADO! Juntos, é agora o momento de exigirmos melhores condições para os que trabalham e os que recorrem ao SNS. Todos percebem, estamos certos, do verdadeiro e inestimável valor da Saúde.

OBRIGADO SNS!

(*) Médica do Hospital dos Covões (CHUC)