Coimbra  25 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Fiolhais

O vira de Coimbra

30 de Setembro 2021

A imprevisibilidade do voto popular é um dos encantos da democracia. Viradas as urnas, há uma viragem clara em Coimbra. A coligação liderada por José Manuel Silva, onde o PSD manda, “esmagou” o PS, tirando o lugar de Presidente da Câmara, que parecia vitalício, a Manuel Machado.

Há evidente mérito de José Manuel Silva, que, eleito pelo Somos Coimbra em 2017, foi combativo na Câmara, e também de Rui Rio, que o escolheu contra as estruturas locais do partido. A proposta do PSD da transferência do Tribunal Constitucional para Coimbra (que eu apoio!) foi uma boa cartada, que embaraçou o PS. Foi muito mais eficaz do que prometer um aeroporto ou uma marina. E há um evidente demérito de Manuel Machado, que pouco tinha para oferecer além de alcatrão nalgumas ruas e uns canteiros, e de António Costa que o apoiou, vindo a Coimbra dizer que só faltavam “700 metros” (sic) para a nova maternidade. O presidente cessante foi, durante a campanha, muito displicente. Sendo fraca a sua entourage, não fez a renovação que se impunha.

A aritmética eleitoral é simples: a coligação vencedora juntou os votos do PSD e do ex-Somos Coimbra, ao passo que o PS continuou a sua trajectória descendente que vinha de trás. Coimbra mudou porque estava saturada da arrogante governação do PS, que, ao longo de muitos anos, foi deixando cair a relevância da Lusa Atenas no todo nacional. Há coisas que podem e devem mudar e que estão prometidas pelos vencedores: facilidades camarárias para o investimento, melhoria dos transportes, descentralização para as freguesias, etc. Mas há outras que serão mais difíceis de mudar, até pela sua ausência no programa, como a necessária mudança na “Capital Europeia da Cultura 2027” (que está sem elã), a maior atenção aos livros e bibliotecas (Coimbra não tem Feira do Livro e tem uma biblioteca abandonada) e o impulso à cultura científica, ligando ciências e humanidades (o PSD não sabe o que fazer na rua da Sofia e no sítio da Penitenciária).

Vamos ver como é que Coimbra vai ganhar protagonismo no país, o que passa pela conjugação entre cidade e universidade. Por exemplo, que propostas terá o PSD para a regionalização, além de albergar em Coimbra o referido Tribunal? Será interessante ver o novo diálogo de Coimbra com o governo central e com as demais cidades das Beiras, na indispensável construção da região. Haverá suficiente habilidade política? Aos novos gestores de Coimbra deve ser dado o benefício da dúvida. É tempo de provarem o que valem.

Quanto aos partidos menores, só o PCP terá um vereador. Caiu em votos, tal como no resto do país. Os Cidadãos por Coimbra caíram também: apesar de algumas boas propostas, não conseguiram sair do nicho, livrando-se da sua ligação ao Bloco de Esquerda. A coligação vencedora talvez precise dos Cidadãos na Assembleia Municipal. Por último, uma palavra sobre a freguesia onde voto, Santo António dos Olivais: aí a superioridade da coligação liderada pelo PSD foi muito mais acentuada do que no concelho.

Coimbra virou. Ganhou a democracia e tenho esperança que Coimbra e a região ganhem.