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Casimiro Simões

O último chouriço mouro na Casa Branca

3 de Fevereiro 2017

5 - O último chouriço mouro na Casa Branca

 

O velho Zé do Galho tem andado com o coração nas mãos. Tudo por causa da bisneta mais nova, jornalista numa estação de rádio, em Lisboa, que tirou uns dias para poder participar no Congresso dos Jornalistas.

O homem pensa que Francisca Mouro trabalha na estação pública, mas não tem muita certeza. Estranha que ela ganhe à peça e seja paga pelo departamento de compras da empresa.

Republicano de antes quebrar que torcer, o Ti Galho tem destas cismas que se tornam depois aflição grossa. Sobretudo no Inverno, quando o gelo lhe trespassa os ossos e lhe deprime a alma.

Receia que a jornalista, esbelta e morena, que há sete anos terminou o mestrado na Universidade de Coimbra, sempre pronta para as mais urgentes solicitações dos editores, não tenha futuro decente lá na capital, de bloco, caneta e gravador em riste.

– Nem em Lisboa, nem em geral num Portugal que mal convive com a liberdade de opinião e de crítica! – lamenta.

A cachopa fala mandarim e já pensou emigrar para Angola ou para a China, agora que os velhos generais da luta armada, como os herdeiros de Deng Xiaoping, têm amanhãs que choram nos subúrbios malcheirosos do socialismo de mercado.

Logo o seu antigo professor de Ética e Deontologia a avisou que a liberdade de imprensa, cabouco sagrado das democracias, é desígnio desconhecido naquelas paragens onde o poder radica muito na ponta das baionetas.

– E, por cá, a coisa também não está muito famosa! Salvo honrosas excepções, os jornais deixaram de fazer investigação e as televisões inundam a casa dos portugueses com bola, directos inúteis e comentadores ridículos dias inteiros a dar à língua – critica o Ti Galho.

É certo que a crise que eclodiu nos Estados Unidos, em 2008, contaminando a Europa e demais continentes, aumentou a pobreza em Portugal e trouxe múltiplas apreensões.

Medo do dia de amanhã, subserviência aos poderosos que conspiram contra a legalidade democrática. Medo até da própria sombra, nas esquinas de aldeias, vilas e cidades.

Desconfiança do casal vizinho que passa o dia a falar na vida dos outros, do companheiro de trabalho, meio bicho, que ferra os olhos no visco da calçada ou do colega de turma que engraxa o professor e espiolha cada teste da amiga do lado, a qual vigia como feroz concorrente, por muito discreta que seja.

– Quem tem medo compra um cão. Olha que em tempo de guerra não se limpam armas. Ouviste, menina? Precisamos de inventar, nem que seja levantar da sola dos pés, as forças para atirar o empreiteiro Trump do andaime abaixo! – graceja Zé do Galho armado em mestre de obras, fazendo voz de mau, embora militante pacifista do século XX.

Peito às balas, mangas arregaçadas, o ancião festejou 102 anos no Dia de Reis. No jantar comemorativo da Revolta do 31 de Janeiro, acaba de repetir a frase que mais gosta de brandir aos seguidores do militar e carbonário Machado Santos:

– Abomino republicanos com o rei na barriga!

A bisneta Francisca Mouro tem um blogue onde divulga centenas de textos que produz, pela noite fora, e aos quais não consegue dar melhor uso num tempo de enormes incertezas para o futuro do jornalismo.

Nos tempos livres, a jovem destaca-se no humor, na ironia e na crítica mordaz. Quando chega de Lisboa, num ou noutro fim-de-semana, não consegue conter a sempiterna avidez de informação local com que alimenta o veículo de comunicação pessoal.

No blogue, cabem todos os géneros, da opinião à crónica, da notícia à reportagem, do perfil à cronologia.

Ainda há jornalistas?

– Ainda há jornalistas? – interroga-se Zé do Galho, enquanto amarrota bruscamente um diário nacional e com ele espevita a fogueira que lhe vale nas noites de invernia.

Tal como o documentário “Ainda há pastores?”, do realizador Jorge Pelicano, mostra que rareiam os pastores na Serra da Estrela, o velhote realça o abismo impressionante que separa hoje esse jornal, outrora seu preferido, da matriz independente e fundadora.

Na semana passada, a Câmara Municipal demoliu o Pelourinho, que resistiu durante séculos no centro histórico, na praça onde eram punidos e humilhados publicamente os mais terríveis criminosos da cidade.

Encimado por uma cruz da Ordem de Cristo em ferro forjado, que assenta por sua vez numa esfera armilar em pedra de Ançã, do tamanho de uma bola de futebol, tudo no topo de uma coluna do mesmo material, o conjunto manuelino foi classificado como monumento nacional há mais de 100 anos, no estertor da Monarquia.

Mas Ladino, o soba eleito pelo povo soberano, filho do provedor da Santa Casa da Misericórdia e neto do cacique nomeado por Salazar para a Câmara, em 1948, acordou naquela manhã de traseiro para as nuvens.

Pau de Virar Tripas, vereador da Contemporaneidade, especialista em demolições clandestinas e rapidinhas, mandou entretanto fazer um quiosque para o lugar da condenada coluna de calcário de base hexagonal.

O balcão de madeira foi concessionado à mulher do vereador, que vende jornais, revistas, tabaco, chicletes e preservativos.

Também transaciona calças, camisolas, blusões, gorros e sapatos que os apoiantes do Ladino deixam de usar em meio uso. São eles os arautos da modernidade concelhia.

Batem palmas por tudo e por nada e arrotam deliciosas postas de pescada quando veem o soba em apuros. Está visto que rejeitam coisas do passado, memórias bafientas, desde logo imóveis classificados debaixo da alçada da Autoridade do Património Vetusto.

O chefe Ladino faz equilibrismo no fio da navalha até sair sangue. E o vereador magricela é igualmente um malabarista muito completo.

Desfeito em pedaços, o Pelourinho serve agora de alicerce ao quiosque da extremosa esposa do Pau de Virar Tripas, que ouve ruídos medonhos sob a madeira rangente.

– Dizem à boca cheia que será o avô do Ladino a dar voltas na tumba. Era salazarista, mas foi ele que promoveu o último restauro do amontoado de cantarias que não goza da simpatia dos calhaus.

Zé do Galho, mula velha, atira aos adversários a primeira, a segunda e a terceira pedra. Uma chuva de gravilha grossa pede meças ao granizo de Janeiro.

O Pelourinho, agora transformado em posto de venda de bugigangas, tinha em seu redor uma zona especial de protecção.

Só que o vereador da Modernidade e Contemporaneidade é frontalmente contra a existência de velharias no centro da cidade.

– O executivo camarário não tem vocação para preservar estas tralhas do passado – afirma em tom solene o aperaltado trinca-espinhas, a assar carapaus fritos entre dois copos de licor de amêndoa amarga.

Paladino da tolerância, o ateu Ladino assina de cruz e faz aprovar a construção de um parque eólico na zona especial de protecção do defunto Pelourinho.

A Autoridade do Património Vetusto não foi chamada a dar parecer, nem sequer sonha com a tramoia.

O negócio da energia renovável vai de vento em popa, o que levou a autarquia a erguer um muro em redor das torres, com três fiadas de arame farpado a arrematar.

Ateu Ladino paladino da tolerância

Para compensar uma seita religiosa fixada na zona desde o século XVIII, o endiabrado Pau de Virar Tripas, com o beneplácito do líder, instalou um pequeno oratório, todo em pinho-de-flandres, nas traseiras do quiosque, para homenagear os condenados que morreram no local desde o tempo de D. Manuel I.

Inimigos do progresso, velhos do Restelo que nunca visitaram a torre de Belém, mandada construir pelo rei Bem-Aventurado, denunciaram a situação ao Património Vetusto.

Não tardou o parecer com que o organismo recusa passar uma esponja por cima dos atentados contra o património cultural, cujas obras empregaram 20 imigrantes, entre sudaneses, sauditas, sírios, afegãos, iraquianos e paquistaneses.

Na outra margem do Atlântico, Donald Trump, construtor de muros desde que sejam os vizinhos a pagar, pede informações a um emigrante português oriundo dos Açores sobre os ousados investimentos da trupe do Ladino, noticiados pela jornalista Francisca Mouro para todo o mundo lusófono.

Trump, que não chegou a dar o trompázio desejado pelo Ti Galho durante a corrida para a Casa Branca, analisou os projectos mais inovadores com espírito pecuniário de pato-bravo.

Um quiosque, um parque eólico, um oratório e um muro alto, tudo financiado a fundo perdido, com verbas europeias do Portugal 2020, e com mão-de-obra de países que o empreiteiro de Nova Iorque não vê com bons olhos.

Enquanto assina mais um maço de papéis que destilam ódio, como quem dispara uma chuva de mísseis desgovernados, afaga a juba oxigenada e solta um rugido verdadeiramente ameaçador.

O negociante faz contas de cabeça. Mais uma vez, admite recuar para aceitar muçulmanos nas suas empresas.

Trabalhadores que, por umas cascas de alho, façam calçada portuguesa em redor da Torre Trump e edifiquem na fronteira dos Estados Unidos com o México um muro que arrume de vez a Muralha da China.

Mas logo confunde o autarca Ladino com Aladino, o árabe da lâmpada maravilhosa.

De pé atrás com os seguidores de Maomé, zangado com a comunicação social, Trump coloca na lista negra a morenaça Francisca Mouro.

– A jornalista moura é oriunda de que país islâmico? – pergunta à insubmissa procuradora-geral interina dos Estados Unidos, Sally Yates.

Num acesso de fúria, antes de afastar a democrata do cargo, lança à rua o último chouriço mouro que havia na despensa da Casa Branca.

Por suspeita de terrorismo, o consumo do suculento enchido de Portalegre na pátria do Tio Sam é igualmente proibido entre os portugueses. Ou serão árabes?

 

(*) Jornalista