Coimbra  17 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

O que temos de melhor?

9 de Junho 2023

Embora o catálogo mais conhecido de artes elenque sete – donde a expressão “sétima arte” que tão bem conhecemos para falar do cinema – não resisto a dizer que na Bélgica a banda desenhada é uma arte maior em si mesma, fora do catálogo. Em bom rigor, a banda desenhada é um misto de literatura e pintura, estas sim reconhecidas no tal catálogo mais ou menos consensual de artes, mas a importância e destaque da banda desenhada belga é de tal ordem que bem justifica que a tratemos com a devida vénia. De resto, não faltam na Bélgica eventos dedicados a esta arte, que reúnem ao longo do ano os mais renomados autores de banda desenhada do mundo, muitos deles (não por acaso) com raízes nesse país. O mais conhecido junto dos portugueses (e já falecido) será Hergé, que criou em 1929 o imortal Tintim. Mas esse é um – talvez o mais sonante – de entre dezenas de nomes de grande autores de banda desenhada belgas.

A cidade de Bruxelas acarinha devidamente este traço marcante da cultura belga. É em Bruxelas que encontramos o ‘Centre belge de la Bande dessinée’, um dos melhores museus de banda desenhada do mundo, juntamente com os de Londres, de Nova Iorque e da Florida. Mas a banda desenhada é parte integrante do quotidiano da cidade, já que encontramos um pouco por toda a cidade, e sobretudo no centro, paredes com personagens famosas de banda desenhada: Tintim, Lucky Luke, Corto Maltese, Le Chat, apenas para citar alguns mais familiares dos portugueses. Mais singular ainda é o facto de várias ruas serem baptizadas com o nome de personagens de banda desenhada belga, o qual figura numa placa com um aspecto bastante oficial e pode levar ao desnorte dos visitantes menos informados, já que figura lado a lado com o verdadeiro nome: “Mas isto não é a rua Marsupilami?… Não encontro no mapa…” ou “Isto é a rua Charles Buls ou a rua Tryphon Tournesol?”. Esta bonita e divertida homenagem mostra bem que a cidade tem amor pela banda desenhada, respeito pelos autores e carinho pelas personagens. Esta dedicação é por isso extremamente oficial: no sítio da internet da cidade de Bruxelas (o equivalente ao que seria o sítio da Internet da Câmara Municipal) existe abundante informação sobre os chamados “percursos BD”, com mapas, indicação dos locais onde existem murais, e muito mais que permite a todos desfrutarem desta riqueza cultural. Assim se cria uma imagem de marca: pegando no que de melhor se tem e elevando-o.

E em Coimbra, que imagem de marca queremos ter? Cidade do conhecimento, seguramente. Cidade da saúde. Cidade dos estudantes. Cidade do fado (de Coimbra!). Cidade da cultura. Cidade central. Cidade com história. Cidade panteão do nosso primeiro rei. Cidade com tradição. Cidade das tricanas. Cidade de livros. Cidade dos lentes. Que podemos fazer para utilizar todos os atributos de Coimbra a seu favor? Como podemos impulsionar o vastíssimo património material e imaterial ao nosso dispor para que Coimbra seja ainda mais valiosa para quem nela reside? E para que seja um ponto de passagem que mereça maior detença de quem a visita? Para que Coimbra abrace o que é e se mostre em todo o seu esplendor aos conimbricenses, ao país e ao mundo?