Coimbra  25 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

O que influencia o voto dos eleitores?

21 de Janeiro 2022

 

Em democracia, por ocasião de actos eleitorais, o debate de ideias, medidas de política, acções e propostas concretas e específicas faz-se hoje através da comunicação social, nomeadamente audiovisual, que entra em casa das pessoas, em horário nobre, e constitui o motivo principal de diálogo familiar (por vezes discussão e desentendimento), salvo excepções.

São relegadas para plano muito inferior as acções de propaganda dos candidatos em visitas a instituições (de solidariedade social ou ONGD), a projectos em execução (governamentais ou autárquicos) e a regiões demarcadas em múltiplos sectores de actividade (agricultura sustentável, empresas inovadoras, sindicatos representativos, organismos de classe), servindo apenas para ter visibilidade na comunicação social e apresentar promessas sem continuidade, salvo excepções novamente.

As redes sociais são privilegiadas por todos os contendores em campanha, através de mensagens curtas com alguma eficácia e de contra-propaganda que destila fel e vinagre, ficando em plano secundário a propaganda em cartazes e outdoors (normalmente com slogans vazios de conteúdo) e a agitação presencial nas ruas quase nula (devido à covid e à sua nulidade em utilidade, gerando apenas irritação) e nos comícios (onde só vão os aderentes já convencidos, nem sequer vão os curiosos).

Estamos no século XXI, e a velha política do tempo da ditadura ou do PREC é substituída pela nova política, em que a forma se alia ao conteúdo (ou até o substitui), os métodos de agitprop são ultrapassados pelos soundbites, a preocupação ambiental anti-poluidora (sonora, visual e logística) faz-se sentir. Mantêm-se as jotas, os departamentos partidários sectoriais das mulheres, os grupos de pressão internos, os interesses e os compadrios que conflituam com a qualificação dos candidatos a seleccionar.

As eleições são realizadas por distritos (ignorando as comunidades intermunicipais e os potenciais círculos uninominais), para eleger deputados que ninguém conhece (porque será que lá estão?), ou escolher figuras públicas (com mais ou menos valia, gerando adesão ou antipatia, com passado de mérito ou teia de ficção para endeusar ou ser apócrifo).

Verdadeiramente o que está em causa nas eleições legislativas, quando o cidadão eleitor formula a sua opção, é a constituição de um governo e a sua liderança, na defesa do património, das causas, do serviço público e das necessidades das pessoas para melhoria da sua qualidade de vida, e não a escolha de deputados que perseguem quase religiosamente o status quo partidário, de imagem muitas vezes negativa, desacreditada ou até desprezada (justa ou injustamente, afinal estamos em democracia).

E o governo que resultar das eleições legislativas 2022 será do Partido Socialista (em ideologia, luta pela liberdade e prática governativa à esquerda) ou do PSD (já vai longe o PPD da social democracia com destino ao socialismo, ficou a prática governativa à direita mascarado do centro), será coordenado por António Costa (defensor do serviço público, com experiência e consistência, talvez com companhia e colaboradores capacitados) ou por Rui Rio (com fraco conhecimento dos problemas que afectam as pessoas, defensor da economia liberal e discurso popular quase populista).

Os debates televisivos têm demonstrado a preparação ou a impreparação dos candidatos, o traquejo de quem sabe fazer e a verborreia de quem promete fazer, a vivência das novas ideias promotoras do desenvolvimento sustentável e a habilidade dos slogans que não passam de intenções e epítetos de mau gosto, a consolidação da democracia, do progresso e do estado social e as ameaças à democracia e aos direitos humanos para todas e para todos.

O eleitor indeciso terá os debates televisivos como contributo para a sua decisão, o seu voto em liberdade é válido como expressão do povo e das correntes de pensamento e acção, terá a palavra final para o mundo que quer para os seus descendentes e para as gerações que preza, e não será influenciado pela manipulação grosseira dos factos, pela falta de educação, pela insídia de baixo nível, pelo achincalhamento de pessoas e pelo insulto ignominioso.

Tendo os debates televisivos tal relevo, isso não significa que o sentido de voto dos eleitores seja influenciado massivamente pelos comentadores de cadeirão, que são cidadãos com as suas preferências políticas e partidárias na generalidade dos casos, escolhidos pelos canais televisivos conforme as suas tendências e interesses.

Os comentadores debitam como se fossem todos independentes do poder que não os atrai (?), mas opinando quanto ao rumo que querem para o poder decisório, ditando vitórias e derrotas a este e àquele político nos debates, como se fossem cientistas de verdade, e desvalorizando a sensibilidade individual e inteligência dos eleitores, falando em seu nome, por representação.

Eu contribuí para o direito de voto como alguns, na força política que cada um desejar, enquanto muito outros se serviam, bajulavam ou abastardavam, durante o regime fascista. Assim, continuarei a votar pela liberdade, pela fraternidade, pela igualdade.

(*) Médico