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Semanário no Papel - Diário Online

 

Casimiro Simões

O presépio de luz do moleiro enfarinhado

23 de Dezembro 2016

penela-noite

[Aos amigos e amigas do concelho de Penela, os que lá vivem e trabalham, mas também os que um dia tiveram de partir]

Há um bom par de anos que o velho Carregã não faz farinha. Faltam-lhe as forças e os fregueses. Vendeu o moinho a um alemão reformado que lho pagou sem indesejáveis regateios da mondeguina Feira dos 23.

Só do burro promete o moleiro nunca se apartar. Um companheiro manso com quem arranjou vida de monte em monte, de aldeia em aldeia, de casa em casa. Assim jurou e assim fará.

Algures onde o xisto laminado se alonga em corcundas, barrocos e ribeiros, para a sul ser recebido de braços abertos pelo calcário enxuto das grutas de Sicó.

Nesta consoada, abanca a breves léguas da capela de São João do Deserto. Para ali está o barraco centenário dos antepassados. Perdido como casa assombrada num pinhal que entesta com o baldio.

Foi nessas quatro paredes de pedra e barro que o pai ergueu cabeça como carvoeiro no rescaldo da I Guerra Mundial, ainda debilitado pelo gás mostarda dos campos da Flandres.

Os irmãos abalaram para Áfricas e Brasis e a mãe morreu de tifo muito nova. Devoto de São Miguel e dos ventos que varrem o pó nos cumes da montanha, coube ao honrado Ângelo Carregã zelar pelo viúvo da Venda dos Moinhos até ao fim.

Um carvoeiro farrusco e um moleiro enfarinhado. Pai e filho unidos na diferença por muitos anos. Chega nessa noite a Penela um jovem que conseguiu fugir da guerra e da fome, num país de África.

Quer conhecer a Rota da Romanização. Zaki, que frequenta agora a Universidade de Coimbra, viveu sempre nos plainos a perder de vista, pasto das manadas de búfalos e de uma ou outra girafa solitária cobiçada pelo rei leão.

Lá no alto, já não corre leite e mel como outrora. No casebre onde o soldado raso de La Lys arrecadou sacos de carvão e dinheiro do negócio até fechar os olhos, em 1979, acende o Ti Carregã o seu lume de Natal.

Crepita a lenha de pinho sob a sertã que frita filhoses de abóbora-menina. Está feita a canja de galinha, há vinho, pão, azeitonas, nozes, queijo do Rabaçal e mel do Espinhal na mesa de castanho grosso.

Pedro e Paulo, os dois sobrinhos mais chegados, são amigos do imigrante da savana, e vão todos cear com o moleiro, que fez 81 anos no Verão passado. Levam um bolo-rei e uma garrafa de vinho fino da Meda. Sobem a serra numa resoluta carrinha Renault 4l.

Zaki viaja no banco de trás e não tem a mínima noção do terreno que pisa, nem dos perigos da estrada que serpenteia, muito menos da bela paisagem que a noite esconde.

– Chegámos, companheiro! – anuncia Pedro, o condutor. Atordoado com dor de ouvidos devido à altitude, o estudante de Medicina, nado e criado nas planícies áridas de África, não imagina sequer as voltas que deu para ali chegar.

A canja de galinha gorda rescende na terrina de loiça de Sacavém. Mas parece deixar no ar um leve e estranho cheiro a maresia.

– Comam rapazes, galinha desta não têm na cidade. Ai não têm, não! – recomenda Carregã, que desde Agosto alimentou uma ninhada de frangos caseiros à base de milho do seu lavrado e couves migadas misturadas com farelo.

O vento espalha sobre a casa o aroma saudável da resina dos pinheiros. Lá dentro, uma espécie de brisa oceânica impregna os curiosos narizes do serão natalício.

O moleiro apura o olfato, como quem testa o ar que se respira. Delícia sem igual nas redondezas, não é que o caldo deixa mesmo na boca um travo a peixe. Ou talvez marisco!

– Desculpem, amigos. Esta é uma canja de sardinha fresca! – ironiza a raposa velha a preparar os comensais.

A verdade é que durante semanas o homem reforçou a dieta da frangalhada com sobras que lhe deram na peixaria. Pelos bicos vorazes, passaram muitos quilos de cavala e petinga que emprestaram à carne dos galináceos um sabor piscícola único.

Uma gargalhada infinita faz vibrar as empenas do edifício. Os portugueses do grupo lavam a boca com mais uns copos de vinho tinto. Comem figos de Torres Novas e nozes de Penela, provam o generoso do Douro. Zaki, mais moderado na bebida, não fica atrás.

Sem chuva e sem neve, apenas o apocalítico vento suão, a jornada fraternal termina altas horas. Nas enxergas espalhadas pelo chão, tombam quatro corpos embalados em hossanas que se ouvem ao longe em louvor do Menino.

Há muito que o Ti Carregã não passava uma consoada assim. Ao alvorecer, ainda o jumento zurra nas palhinhas, o jovem da savana desperta e sai disparado pela porta da loja.

O quintal está inçado de tomilhinha, a popular erva-de-santa-maria que aromatiza o leite de cabras e ovelhas e diferencia o queijo do Rabaçal.

Extasiado, ele que fizera a viagem de noite e nunca tinha subido a uma montanha, avista finalmente toda a vila de Penela lá ao fundo.

O alvo casario e o castelo majestoso no cimo do outeiro. Rebanhos buscam o bom pasto nas encostas.

– Presépio de luz! – exclama Zaki.