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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

O novo paradigma de Natal

27 de Dezembro 2018

Natal na Internet

Pertenço, claramente, ao velho mundo, espaço simbólico e mental do qual me sinto herdeiro. Não é à Europa que me refiro, na terminologia histórica distante, mas sim ao tempo, recente, em que o Natal era uma realidade eminentemente física – embora assumindo a característica e indelével identidade sobrenatural e mística.

Nesse tempo, em especial o da minha infância e adolescência, a época natalícia ancorava-se em gestos e palavras correlacionados com artefactos concretos: a árvore, o presépio com as figuras de barro retiradas da história bíblica, o musgo que se apanhava nas matas, as prendas colocadas no sapatinho, a preparação da consoada, a reunião em família, a harmonia do lar, a celebração expressa em dimensões concretas e palpáveis.

Mas já havia um choque, tolerado pelas partes envolvidas. O Pai Natal invadia a passos largos o mundo judaico-cristão de S. Nicolau, à boleia das grandes multinacionais que irradiavam a partir dos EUA um novo conceito que acabou por se vulgarizar e tornar hegemónico! Hoje ninguém imagina a época que atravessamos sem o homem misterioso que vestiram de vermelho, com longas barbas brancas, carregando sacadas de prendas em trenós movidos por simpáticas renas.

Enganaram-se, porém, os que julgavam que o mundo evoluiria de forma lenta, onde o sacrifício de um símbolo do cristianismo às leis do mercado constituiria apenas uma manifestação episódica.

Estava para chegar a grande revolução do mundo moderno, com a comercialização da tecnologia da Internet a partir da década de 1990, da qual resultou a divulgação e incorporação da rede internacional em praticamente todos os aspectos da vida humana. Esta alteração acelerou a comunicação, diminuiu os tempos entre emissores e receptores, alterando profundamente o modo de nos relacionarmos.

Não tardará muito para que metade da população mundial utilize os serviços da Internet, 150 por cento mais do que em 1995, partilhando formas diversificadas de interacções humanas tais como: mensagens instantâneas, blogs, feeds, fóruns de discussão, redes sociais, comércio on-line, business-to-business e serviços financeiros.

E foi neste imenso mar de novos sistemas comunicacionais que se foi diluindo o mundo real, de proximidade, de afectos e emoções – imparável segundos alguns autores, possível de compatibilizar segundo opinião de outros…

O Natal não foge a esta nova realidade: as melhores árvores de Natal, os mais perfeitos presépios, as consoadas mais esmeradas, as prendas mais originais e os momentos de celebração familiar mais intensos tendem a ocorrer sobretudo no meio virtual, onde é fácil mostrar o que se não tem, dar a entender uma coisa e viver outra, comunicando informação manipulada de forma a esconder vazios, dramas e conflitos – sejam eles pessoais ou colectivos.

Será este o melhor caminho para a Humanidade?

Continuação de um Santo e Feliz Natal.

(*) Historiador e investigador

 

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