Coimbra  4 de Dezembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

O Medo

15 de Outubro 2021

O medo é uma resposta emocional a um perigo conscientemente reconhecido e de origem exterior, que vai desde a apreensão e a inquietação leve até ao terror intenso (Enciclopédia Concisa de Psiquiatria).

Quando, em regime de ditadura, em contestação ao fascismo e pela oposição, fiz propaganda e colei cartazes da CEUD em Benavente e transportei para Fazendas de Almeirim, percorri o distrito de Santarém divulgando a CDE, fui preso político pela PIDE após contestar a proibição da expressão “guerra colonial”, participei em manifestações estudantis, reuniões, pichagens e outros actos contra a repressão apoiando a esquerda revolucionária através dos Núcleos Sindicais na Universidade de Coimbra, não tive medo.

Quando pós-25 de Abril, em continuidade, militei activamente pela liberdade e construção da justiça social, perdi utopia e ilusões, fui mandatário concelhio de Maria de Lourdes Pintasilgo em Montemor-o-Velho (uma verdadeira mulher muito à frente do seu tempo), fui co-fundador e dirigente da Associação de Reflexão e Intervenção Política e posteriormente aderi ao Partido Socialista, porque era socialista, já lá vão 23 anos, não tive medo.

Quando exerci a minha profissão (médico), em defesa dos doentes através da ciência e da medicina de proximidade, em defesa da saúde pelas funções de dirigente sindical nacional e dirigente associativo regional, fazendo o melhor que sabia e podia, e ultrapassando os limites da dedicação (cheguei a trabalhar 72 horas consecutivas), durante 44 anos, não tive medo.

Quando fui professor durante 27 anos, recusando a exclusividade da lecionação por não querer deixar os doentes (em serviço público), confabulando com grandes pedagogos da ciência e ensino-aprendizagem, contestando a auréola secular e o distanciamento perante os alunos, enfrentando ídolos pés de barro em bicos de pés, organizando metodologias e conteúdos da ciência, respeitando os 10.000 alunos que tive e que corresponderam reciprocamente, criando a Medicina Humanitária, não tive medo.

Quando fui voluntário, criando e presidindo uma organização humanitária durante 23 anos, percorrendo o mundo em 43 missões de serviço de reconhecimento, formação, ajuda humanitária e ao desenvolvimento, avaliação e relações institucionais, organizando, estruturando e dirigindo a acção civil nas grandes catástrofes da Humanidade, promovendo em Portugal o combate à desigualdade, a inclusão social e a igualdade de género, fazendo da solidariedade uma razão de vida que atingiu 680.000 beneficiários, não tive medo.

Quando, como militante e dirigente de base do Partido Socialista, fiz dezenas e dezenas de intervenções pedagógicas internas retratando conhecimento e humildade, moderei iniciativas do Partido com democraticidade e senso, discordei de múltiplas tácticas que significavam ausência de estratégia, construí estudos técnicos e programas políticos aproveitados, subaproveitados ou ignorados, tive contestação de quem nada perorava, tive apoios de quem a liberdade apreciava, tive reserva e frieza de quem se julgava atingido no seu esplendor, não tive medo.

Então, porque razão teria medo de estar disponível para liderar uma estrutura política que contribua para creditar a democracia, o socialismo e a qualidade de vida, para adoptar novas políticas em novo ciclo que não reedite erros do passado, havendo uma equipa que seja equipa e não só apêndice, que eleja Coimbra para mais obra, reconhecendo a obra?

(*) Médico e militante do PS