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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

O fenómeno Bolsonaro: luz e sombra

18 de Outubro 2018

Bolsonaro

 

Os resultados obtidos por Jair Bolsonaro, na primeira volta, como candidato do Partido Social Liberal (PSL) à presidência do Brasil, agitaram não só a sociedade brasileira mas também o espectro mais vasto da lusofonia. Para nós, europeus, há que estar muito atento ao que se está a passar no maior país da América do Sul, sob pena de sermos apanhados desprevenidos numa leva semelhante.

De candidato considerado por vários analistas como impreparado, incompetente e insano, Bolsonaro conseguiu a proeza de captar a grande fatia dos 117 milhões de votantes brasileiros alcançando 46 por cento contra 29,2 por cento de Fernando Haddad (do Partido da Terra) vencendo em 16 estados, contra nove do seu mais directo opositor e um de Ciro Gomes (do Partido Democrático Trabalhista).

A sua ideologia, aparentemente, de extrema direita, parece ter casado na perfeição com o cansaço da população face ao exercício de poder pelo PT, com os sucessivos escândalos políticos, clima de instabilidade social, violência e desordem que reina no Brasil.

Apesar da sua impreparação, notória no que afirmou sobre economia, saúde ou educação, o vencedor encarnou a figura perfeita do salvador a quem o povo, revoltado com a corrupção, entregou a mudança. De certa forma faz lembrar o processo que conduziu Hitler e o partido nazi ao poder: os dominados entregaram o poder a forças dominantes e obscuras, mas com discurso em sintonia com os desejos da maioria do povo.

Assim, talvez o fascismo não tenha acabado, como alguns defendem, antes se tenha travestido e encontrado na América do Sul, e em particular no Brasil, a fórmula perfeita para se reinventar e ascender ao poder. Não me parece, apesar da distância mental e territorial que me separa da nossa pátria-irmã, que Bolsonaro seja um inocente e que esteja sozinho, sem movimentos invisíveis, a conquistar o poder.

Não. Nenhuma pessoa de sucesso, em tempo algum, conseguiu tudo sozinho! É preciso ler nas entrelinhas e nas subtilezas do seu discurso que afinal até sabe muito bem para onde ir: privatização da Petrobrás, liberalização do uso de armas, reformar o país ao nível educativo, social e económico.

Se vencer na segunda volta pode, eventualmente, colocar-se a questão da mudança de regime para uma ditadura (mais uma na história brasileira). Mas tal só acontecerá se o grande influenciador das correntes ideológicas, políticas, sociais e, sobretudo, económicas de toda a América deixar – os Estados Unidos da América.

Nós, portugueses e europeus, que temos um país política e ideologicamente bem definido, entre esquerda e direita, devemos olhar o assunto com redobrada atenção – nas costas dos outros lemos as nossas, assim foi e continuará a ser. É que, pela velha Europa, galopa em vários países a extrema-direita, ao mesmo tempo que surgem no firmamento político uma multiplicidade de partidos que nalguns casos (França ou Itália, por exemplo) não deixam perceber, qual o real posicionamento ideológico.

O futuro dirá de sua justiça. Se Bolsonaro é luz ou sombra, tiro no escuro ou a medida acertada.

(*) Historiador e investigador

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