Coimbra  14 de Novembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Emília Cabral Martins

O esclarecimento que se impõe: OCC – Charamela da UC

26 de Setembro 2017

A OCC celebra em 2017, 16 anos de actividade ininterrupta.

Tem assinado ao longo dos anos vários protocolos de colaboração com empresas e instituições e entre elas e, quase desde a primeira hora, conta-se a Universidade de Coimbra com o saudoso professor doutor Fernando Rebelo então magnífico reitor da UC.

Em 2006, já com o reitor prof. doutor Seabra Santos, a OCC acordou e assumiu a responsabilidade musical nos actos solenes da UC através do que se tem designado por “Charamela”.

A sua composição, reportório e condições de actuação foram dadas então pela UC à direcção artística da OCC.

Volvidos 10 anos, ou seja em 2016, e depois de contactados para mais uma destas participações, telefonámos para combinar detalhes e confirmar horários, como era habitual, para superar condignamente alguma alteração de última hora.

Neste contacto foi-nos respondido que teria havido um lapso e que a “Charamela” não participaria naquele ato solene.

Para espanto nosso, viemos posteriormente a tomar conhecimento, através da comunicação social, de que afinal “havia outra Charamela”.

Alguns meses depois, fomos finalmente recebidos e informados de que teria havido algumas alterações… sem grandes sins nem nãos quanto ao futuro.

Termina assim a colaboração de 10 anos.

Aproveitamos esta oportunidade, para, em nome desta Associação, expressar o mais profundo agradecimento a todos os músicos que colaboraram “nesta Charamela”, em especial ao maestro Jonathan Costa, pelo trabalho dedicado e profissional desenvolvido, com uma qualidade reconhecida por todos quantos tiveram a oportunidade de o apreciar ao longo dos anos.

Em face da manifesta falta de respeito demonstrada para com a OCC, cumpre-nos publicamente manifestar o nosso desagrado pela forma deselegante, (para não dizer mais!), como os responsáveis pela UC “cuidaram” deste acordo. É lamentável.

E porque o é de facto, importa esclarecer publicamente algumas questões, em função das também públicas declarações que nos chegam pela comunicação social.

Assim, o “Quinteto” referido nos artigos nomeadamente do DN e do Notícias de Coimbra (via Lusa), sem qualquer identificação, são na verdade os músicos da Orquestra Clássica do Centro: Não são apenas cinco.

Como uma das “justificações” apresentadas nas notícias para a sua “substituição” é referida a “fuga à composição histórica”.

Cumpre esclarecer que quando iniciamos esta colaboração e, depois de acertadas, como já referido, a composição, o reportório e os rituais de participação nas cerimónias, foram-nos entregues sete fardas em tudo semelhantes às dos archeiros, fatos que incluíam pares de luvas brancas.

As fardas que dificilmente serviram aos músicos participantes, pois cada um tem a sua constituição física, eram de difícil e cara aquisição, além de que, como por vezes participavam músicas/senhoras, para elas não havia farda igual. Assim, as senhoras iam vestidas de preto (traje habitual nos concertos de orquestras) e os senhores de forma desigual.

Com as luvas é que já não é possível tocar! (Que músico que se preze tocará com luvas?)

Os músicos da OCC aceitaram honrar o acordo, suportando o que poucos pares aceitariam, pois até o local que lhes era concedido para trocar de roupa e guardar os seus pertences durante as actuações era o vão de escada onde se guardam os produtos de limpeza!!!

Com inigualável modéstia e em nome da orquestra que estavam a representar, tudo aceitaram com bonomia.

Porém, cabe aqui lembrar que o “tempo é feito de mudança”- como diz o Poeta.

Houve tempo em que o grande Haydn comia na copa com o demais pessoal palaciano, por o seu mecenas não o achar digno de se sentar à sua mesa.

…afinal, o modo de considerar os agentes culturais não mudou tanto assim!

Infelizmente, esquecem-se os responsáveis pelas instituições que o respeito só o é quando recíproco.

Hoje, como todos sabemos, também os Músicos têm licenciaturas, mestrados e mesmo doutoramentos!

Exposto isto, e tendo em mente o que é reportado na comunicação social, esclarecemos ainda que sempre respeitámos a tradição, de acordo com as solicitações da reitoria da Universidade.

Acontece que as mulheres também aprenderam música, também se licenciaram, se tornaram mestres e doutoras, tal como os homens como os/as que formam a orquestra, mas nunca houve “archeiras” na UC… por isso (e ainda bem para elas) não tinham farda que as constrangesse…

Felizmente, a certa altura houve mudança, e os músicos e músicas integrantes da Charamela passaram a vestir-se de acordo com os códigos internacionalmente consagrados para as apresentações das orquestras. Mudança que, pelo que se vê agora, durou pouco tempo, deixando de haver lugar para mulheres na “Charamela” e voltando os homens a vestir-se como os “archeiros”. Deve ser a isto que alguns chamam “tradição”…..Nós chamamos-lhe outra coisa.

A tradição é importante mas, importa acompanhar os tempos!

Dizia o actual reitor da UC, prof. doutor João Gabriel Silva, há alguns anos, meses antes de ser eleito para o cargo, num simpático comentário que aceitou fazer a um dos concertos da OCC, que “a orquestra era mais importante para a afirmação da cidade do que a ponte da Rainha Santa”.

Cremos que tudo temos feito para merecer ser ponte que leve ao futuro.

Enfim, lamentando o fim de uma simpática “parceria” com a prestigiosa UC, ficam os votos de que se valorize o que tem casa na cidade, não menosprezando o que também já conta com alguma história!

Que se fomentem projectos com continuidade e sobretudo, a bem da cidade, que se apoiem aqueles que possam fixar profissionalmente os melhores, em todas as áreas, sem esquecer a música, a língua comum da humanidade.

De que vale a História se não aprendemos a construir um presente que seja alicerce para o futuro?!!
(*) Presidente da Direcção da Orquestra Clássica do Centro

 

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