Coimbra  28 de Novembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

O elefante na loja de loiça ou os Hospitais em Coimbra

6 de Novembro 2020

Há nove anos Coimbra tinha dois Hospitais Gerais Centrais, o HUC e o CHC, que eram também os Hospitais Centrais referência da Região Centro. Estabelecido que por cada 800.000 utentes deve haver um Hospital Central, a nossa Região terá de ter pelo menos dois, eventualmente três, nos seus 2.300.000 habitantes. Sediados que eram dois em Coimbra, por todo o know-how em Saúde concentrado na cidade, na sua Universidade – a segunda maior do país – e nas múltiplas instituições ligadas ao ensino e à investigação naquela área, que a tornam incomparável na Região Centro.

Corria tudo bem quando o Governo, sem qualquer razão aparente ou, ainda menos, estudo feito, resolveu fundir os dois Hospitais Centrais num centro hospitalar, o CHUC. Que não saiu realmente um centro hospitalar, mas sim um hospital único dividido por vários edifícios separados por quilómetros. Num momento inicial ficou o maior hospital do país, mas rapidamente começou a diminuir de tamanho, quando se começaram a acumular serviços num edifício, o do HUC, com a sua saída dos outros. O Hospital dos Covões, esvaziado de várias especialidades, continuou, no entanto, a funcionar como hospital, integrando mesmo alguns centros de referência do CHUC entretanto criados. Mas é claro que o efeito negativo da ausência de apoio das várias especialidades deslocalizadas para o outro lado do rio, e aí acumuladas com manifesta redução do seu rendimento, se foi tornando por demais evidente, e por isso se esperava, logicamente, que a situação fosse revertida, para bem dos dois Hospitais e dos respectivos doentes.

Eis senão quando aparecem duas administrações do CHUC, formadas por nomeados para o cargo alguns não conhecendo nenhum dos hospitais envolvidos, e a maioria não conhecendo de todo o Hospital dos Covões, ao ponto de nunca lá terem ido (!), cujo objectivo depressa se revelou: reduzir o CHUC ao HUC. E, assim, o Hospital dos Covões foi rapidamente sendo esvaziado dos profissionais e dos Serviços que ainda tinha, para se irem juntar no HUC com os que já lá estavam. Para, depois disso, fazer das suas instalações “qualquer coisa”… que até pudesse eventualmente vir a satisfazer a ânsia de protagonismo profissional dalgum elemento do CHUC…

Mas rapidamente se tornou evidente que o HUC não se bastava a si próprio, e que, por mais profissionais e doentes que lá se quisessem meter, a sua capacidade de resposta não era infinita, e estava há muito ultrapassada, com a espera por atendimento e as listas de espera para tudo e mais alguma coisa a aumentarem a olhos vistos. Entrou-se, então, na fase de saber o que fazer “daquilo” (o Hospital dos Covões, um dos Hospitais Gerais Centrais da Região Centro e de Coimbra), para que pudesse “dar uma mãozinha” ao HUC. Ser Hospital é que não… porque, para esta administração, Hospital é só um, o HUC e mais nenhum…

Nesta fase apareceu a pandemia de covid-19, e o Hospital dos Covões foi transformado no hospital de referência para a epidemia. Com tudo a correr bem, cuidados intensivos respiratórios e coronários, imagiologia (TAC e RMN), medicina interna, pneumologia, infecciologia, nefrologia, cardiologia, laboratório, hemodiálise, camas de internamento de novo utilizadas. Passada a primeira onda, e não esperando pela segunda, nova tentativa de “reconversão” do Hospital em “qualquer coisa”. E surgiu uma amálgama instável de consultas e de valências, desgarradas, sem relação com os serviços de internamento, a maior parte deles reduzidos ao edifício do HUC, a oito quilómetros de distância. E introduzidas e alteradas numa verdadeira “dança”, mudando quase a cada semana, até de localização no próprio edifício do Hospital (!), e de profissionais a elas adstritos, em negação absoluta do que deve ser uma equipa de saúde, ou para a destruir…

Enfermarias desocupadas, camas vazias. Sem Pneumologia, sem Infecciologia. Laboratório de Hemodinâmica a funcionar, enfermaria de Cardiologia fechada, vazia de camas, Unidade de Cuidados Intensivos Coronários desactivada. Hemodiálise aberta, Serviço de Nefrologia fechado. Serviço de Urgência aberto, mas apenas com Medicina Interna, doentes cirúrgicos de urgência a ser operados no HUC. Salas operatórias fechadas no bloco central, salas apenas para cirurgia de ambulatório, num bloco operatório próprio, que é único no CHUC, realmente. Projecto de cirurgia digestiva diferenciada (cirurgia de obesidade), mas a ser desenvolvido onde deixou de haver Gastroenterologia e endoscopia digestiva (“concentradas” no HUC). Com os Cuidados Intensivos polivalentes a planear ser encerrados. E, no meio disto tudo, de novo hospital de referência para a covid-19.

É evidente que esta manta anárquica e inconsistente de retalhos, à medida do que “o outro” necessite, não é um Hospital, nem se reveste de qualquer eficácia, e muito menos eficiência. É um gasto despropositado de esforço dos profissionais envolvidos e de dinheiro dos contribuintes, incluindo os utentes do Hospital dos Covões, que tanta falta sentem dele e tanto se têm esforçado, em manifestações de rua (cinco), grupos no Facebook (três), petições à Assembleia da República (duas), para que ele volte a ser o que era, nove anos de sofrimento na saúde depois. Isto a que se assiste é um desnorte total na utilização do que quiseram que deixasse de ser um Hospital, e que se mostrou à saciedade que tem de ser. É o resultado duma intervenção desajeitada na Saúde da cidade de Coimbra e da sua Região, qual elefante irrompendo numa loja de loiça e partindo tudo, com quase desmantelamento dum Hospital e uma agressão violenta ao outro, assoberbado com trabalho, atafulhado de doentes e de profissionais mas sem possibilidade de dar mais e melhor resposta, e com redução da sua capacidade de investigação e de ensino, hospital universitário que tem de ser. Aliás, esse bloqueio de um por excesso de solicitação, e a redução de meios do outro por esvaziamento, convergiram já na saída de muitos profissionais, sobretudo de alguns com mais vontade de realização profissional numa instituição que o permita e o estimule.

Um Hospital Geral Central apenas não chega, já foi reconhecido, mas já se sabia. Restitua-se a autonomia ao Hospital dos Covões. Tão simples como isso. Simples, rápido e barato: o Hospital só precisa duma administração própria e que os profissionais que foram levados a sair dele voltem. E voltarão sem dúvida, para um projecto que sempre foi aliciante para todos, para os profissionais e para os doentes. Voltarão quando a acção do elefante deixar a loja em paz.

(*) Médico cirurgião e professor universitário