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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

O domínio das redes sociais

18 de Junho 2021

Não sou daqueles que desvalorizam as redes sociais (faceboook, twitter, instagram, whatsapp, messenger), as quais já saturam os jovens (ouvi isso a um jovem político), e recorrerão agora à modernidade do Face Time, numa procura incessante do que é inovador, desvalorizando o que se conquista, generaliza e torna a comunicação acessível, embora por vezes desviante ou deprimente.

Não sendo eu propriamente um efebo ou pubescente em faixa etária, não estou certo da perda de influência das redes sociais tradicionais em jovens, adultos, idosos ou grandes idosos, mesmo sendo utilizadas principalmente pelos mesmos e, nalguns casos, atirando em tudo o que mexe, ou tendo intenções pouco explícitas, cristalinas ou veras.

O domínio das redes sociais tem aspectos profícuos, como sejam a multíplice abordagem e “tratamento” de temas de relevo que passariam despercebidos ou desvalorizados no contexto da notícia ou do comentário nacional e internacional que nos entram repetidamente pelo écran (de televisão e de computador).

Estimula também a interacção entre os cidadãos, quando tergiversando de forma séria e construtiva, levantando questões, assumindo opiniões, propondo soluções. E até, criando grupos de inquietação e reflexão, que trazem luz às problemáticas, alteram análises de quem tem espírito aberto e lucidez, movimentam causas que valerão a pena, promovem reencontros que reactivam a memória, mas que já não são muito oportunos, tipo “amigos de Alex”.

E, acima de tudo, as redes sociais são uma oportunidade para expressar e comunicar estados de alma, que actuam como ideias e desabafos de certa forma terapêuticos, supletivos da amizade real quando não se confunde com a virtual, complementares da unidade de princípios e objectivos que consolam as pessoas, animadores quando não substituem a rede familiar, esteio da funcionalidade e da estrutura que cria dinâmicas de adesão, equilíbrio e proximidade.

Mas as redes sociais também têm perspectivas danosas ou mesmo deletérias, que ensandecem algumas mentes frágeis, despertam a linguagem viperina e o azedume não apenas neurasténico, sobrelevam as coscuvilhices, a maledicência e a nojice com promoção do discurso de ódio, em que os autores desses comportamentos (até com perfis falsos) têm dificuldade em se rever e reconhecer o seu erro.

Não é o enfoque mais importante o facto de as redes sociais poderem expor a fragilidade do conhecimento gramatical, a ortografia inadequada ou errada, a imperfeição da metodologia expositiva, a forma documental imprecisa, a estrutura / lógica do desenvolvimento consentânea, a linguagem com incorreção da escrita e da terminologia técnica, contendo dados e referências com atropelos e considerações não fundamentadas.

O que é mais relevante é o conteúdo, que terá de primar pela honestidade e probidade, com respeito pela opinião contrária, com elegância na expressão e no argumento, com contenção na palavra e no verbo, mantendo a eventualidade da continuidade do diálogo e a prioridade quanto ao que une e não ao que separa os interlocutores, mesmo que com divergências porque não.

Infelizmente, as redes sociais expressam amiudadamente (com os mesmos protagonistas alguns profissionais do escárnio e mal dizer), as frustrações pessoais (ausência de profissão, procura de “emprego” ou vida sem objectivos) e os interesses (políticos, com frequência), de quem procura algo que não o Ferrero Rocher, e que são ofensivos da dignidade dos visados, chocarreiros na apreciação trauliteira, vergonhosos na baixeza do comentário soez.

As redes sociais não precisam de ser orações de sapiência, mas podem ser instrumentos e configurações que contribuem para a literacia comum que nos acalenta, para o espírito democrático que nos rege, para o diálogo que nos locupleta, para a educação e ética em que todos evoluímos.

Mas, coitados dos pobres de espírito! Quando imbuídos de má-fé e judiação, não será deles o reino dos Céus.

(*) Médico