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João Pinho

O dia de Reis: os magos, o bolo e as Janeiras

5 de Janeiro 2017

bolo-rei

Comemora-se a 06 de Janeiro o Dia de Reis. Para a tradição cristã, baseada nos evangelhos, foi aquele em que Jesus Cristo, recém-nascido, recebeu a visita de três Reis Magos do Oriente, sendo a noite do dia 05 conhecida como Noite de Reis.

Vem narrado na Bíblia, que tendo Jesus nascido em Belém, no tempo do Rei Herodes, os Magos do Oriente chegaram a Jerusalém perguntando: «Onde está o Rei dos Judeus, recém-nascido? Vimos sua estrela e viemos adorá-lo». Nesta época, a designação de «Mago» era dada, entre os orientais, à classe dos sábios ou eruditos. Contudo, ignora-se a proveniência dos Reis Magos, mas supõe-se que fossem da Arábia, tendo em conta os presentes ofertados ao Menino Jesus: ouro, incenso e mirra, isto é, prendas que simbolizavam a realeza, a divindade e a imortalidade do novo Rei.

Foi São Beda, O Venerável (673-735), quem descreveu os Reis Magos, no seu tratado “Excerpta et Colletanea” e revelou os seus nomes: Gaspar, Melchior (ou Belchior) e Baltazar. Segundo a tradição, um era negro (africano), outro branco (europeu) e o terceiro moreno (assírio/persa) – que em conjunto representavam toda a humanidade conhecida à época.

Em Portugal existem várias tradições em torno deste dia, que marca o fim do ciclo conhecido como 12 dias – do Natal aos Reis. O bolo-rei ou bolo de Reis possui grande tradição, sendo confeccionado com um brinde e uma fava. A pessoa que encontrar a fava deve trazer o bolo de Reis no ano seguinte.

A origem do bolo-rei remonta à época romana, concretamente, ao hábito de eleger o rei da festa durante os banquetes festivos: o que era feito tirando à sorte favas, pelo que também se designava o escolhido como «rei da fava». A Igreja Católica aproveitou o facto de aquele jogo ser característico do mês de Dezembro, apropriando-se do mesmo e relacionando-o com a Natividade e com a Epifania, ou seja, com os dias 25 de Dezembro e 6 de Janeiro, determinando, desta forma, que esta última data fosse designada por Dia de Reis, simbolizada por uma fava introduzida num bolo, cuja receita se desconhece.

Contudo, o bolo-rei actual terá surgido na corte de Luís XIV, em França, popularizando-se entre nós no séc. XIX, seguindo uma receita originária do sul de Loire, em forma de coroa e feito de massa lêveda. A primeira casa onde se vendeu bolo rei em Portugal terá sido a Confeitaria Nacional, em Lisboa, por volta de 1870, utilizando uma receita trazida de Paris.

Com a proclamação da república em 1910, a existência do bolo-rei ficou em risco por causa do nome conter a palavra maldita – rei!. Os confeiteiros não desistiram e continuaram a fabricar o bolo sob outra designação: «ex-bolo-rei», «bolo de Natal», ou «bolo de Ano Novo». Não contentes com nenhuma destas designações, alguns republicanos designavam-no como «bolo-presidente» ou «bolo-Arriaga».

Outra importante tradição portuguesa é o «Cantar as Janeiras» ou «Cantar os Reis» de porta em porta. Profundamente enraizada na memória do Povo possui raiz pagã. Segundo José Leite de Vasconcelos as Janeiras relacionam-se com as estreias romanas, que constavam de dádivas em frutos, mel e outros bens. Já na opinião de Armando Lucerna a sua origem filia-se nas saturnais, festividades em honra do deus Saturno, realizadas entre 12 e 24 de Dezembro.

Era o momento oportuno para que as pessoas mais carencidadas conseguissem bens alimentares das casas senhoriais e lavradores mais abastados, protegendo-se face às dificuldades invernais. As crianças pediam durante o dia, de casa a casa, com a sua saca, recolhendo géneros ao abrigo da expressão «dê-nos os Reis». Os mais velhos percorriam as localidades de noite, em grupos, guiados pela candeia/ lampião. Cantavam de porta em porta, ao som da viola toeira, cavaquinho,violino e bandolim: Ó Senhora que lá está dentro / Assentada num esteirão / Deite a mão ao seu fumeiro / E dê p’ra cá um salpicão.

Neste dia era, também, muito comum, a recriação dos autos dos Reis Magos, peças de teatro popular que caíram em desuso.

(*) Historiador e investigador