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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

O dever da memória

30 de Novembro 2016
Comissão Liberato em Santão – Felgueiras [Homenagem a Custódio Pereira de Carvalho]

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No passado domingo, a Comissão Liberato (CL), em parceria com a Câmara Municipal de Felgueiras, União de Freguesias de Vila Verde e Santão, e familiares de Custódio Pereira de Carvalho, prestaram sentida homenagem a este ilustre liberal oitocentista, no preciso dia em que passavam 161 anos da trasladação dos seus restos mortais de Inglaterra para Portugal.

Mais de meia centena de pessoas assistiram, no largo da Igreja Românica de Santão, à deposição de coroa de flores e descerramento de lápide evocativa, que ficou afixada junto à porta do referido jazigo. Naquela inscrição, a Comissão prestou homenagem ao grande amigo de Liberato, utilizando a dedicatória que este lhe expressou no seu livro de memórias editado em 1854: «À MEMÓRIA DO SEU SEMPRE CONSTANTE E GENEROSO AMIGO CUSTÓDIO PEREIRA DE CARVALHO, PELO QUE LHE DEVEU NA VIDA E NA MORTE».

Neste acto usaram da palavra para enaltecer a história e memória destes vultos do liberalismo oitocentista: Manuel Seixas, João Pinho e Isabel Nobre Vargues (CL); Carla Meireles (vereadora da Cultura e Acção Social da CM de Felgueiras); José Paulo Silva e Rui Duarte (da União de Freguesias de Vila Verde e Santão), e Tiago Pinto (em representação da familia de Custódio Pereira de Carvalho).

Custódio Pereira de Carvalho (1778-1854) nascido em Santão, no Municipio de Felgueiras, foi, não só um activo liberal, mas também um bem sucedido negociante em Londres e benemérito de importantes obras realizadas na região felgueirense, tendo fundado as primeiras escolas públicas gratuitas nas freguesias de Caramos, Pedreira, Santão, Varziela e Vila Cova. Ao amigo Liberato não só custeou algumas edições como também lhe pagou as despesas com o funeral.

No seu livro de Memórias, Liberato recorda o modo como a amizade teve inicio: após publicar no jornal o Investigador Português, em Inglaterra, um artigo sobre o Congresso de Viena, enfatizando a triste figura dos plenipotenciários portugueses, Custódio tê-lo-á reconhecido em plena rua abeirando-se dele e dizendo (p.93-94): «Dê-me cá um abraço; ainda em português se não escreveu um artigo como o seu. Em verdade, é preciso não ter sangue português para não se indignar com o que se tem passado no Congresso de Viena! Não bastava ficarmos sem Olivença, e sem a parte que conquistámos aos franceses na Guiana, o insultar-nos ainda com a mesquinha indemnização de 2 milhões de francos, é intolerável! E que belos negociadores lá temos, que tiveram mãos para assinar esta vergonha, e tiveram faces, e coração para a não sentirem!. Este foi, portanto, o grande laço, que prendeu a nossa amizade, que tem durado até hoje», acrescenta Liberato em comentário ao texto.

Esta evocação constituiu, na verdade, o regresso da CL ao Municipio de Felgueiras, após a realização da exposição itinerante sobre a Vida e Obra de José Liberato, que esteve patente ao público durante o mês de Setembro, na Biblioteca Municipal. Está assim cumprido o dever da memória!

(*) Historiador e investigador