Coimbra  25 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Lino Vinhal

O desenvolvimento vive de rupturas e não de acomodação

29 de Abril 2022

O “Campeão das Províncias” fez 22 anos de publicação em Coimbra. Seguem-se os 70 e muitos anos em que se publicou em Aveiro, com início nos anos 50 do século XIX até 1924. Foi aí, em Aveiro, uma tribuna corajosa no tempo das lutas liberais, com José Estevão e outra gente da sua geração a reclamar para a província parte do todo que Lisboa, já então, chamava a si. Vêm desses tempos a gula do poder central e a forma injusta, errada e abusiva como o poder político centralizado e de menor qualidade se abocanha com os recursos do país, em prejuízo do todo nacional que a seus olhos apenas serve para pagar impostos e desempenhar funções de sobrevivência. Já ontem era assim, hoje continua e veremos até quando e até onde.

O “Campeão” de hoje bebe das mesmas águas editoriais e respira do mesmo ar do “Campeão” de então. Mas sejamos humildes e sinceros: faltam-lhe, entre outras coisas, duas essenciais: não tem o dedo, o saber e talvez a coragem da gente desses tempos passados; e Coimbra e região não têm também, e cada vez menos, líderes políticos audazes com coragem para enfrentarem e reclamarem das assimetrias do país, de que Coimbra é apenas umas das vítimas maiores. Preferem, os nossos políticos, quando os há, condicionar o seu agir de acordo com as suas perspectivas pessoais de ascender aos lugares cimeiros da governação do que afirmarem as suas eventuais discordâncias e convicções, com receio de verem partir a malga com que contam lhes seja servida a sopa da sobrevivência política.

Reconhecidas as limitações destes tempos, nossas e doutros, o “Campeão” faz do rigor, da ética e da verdade, a sua preocupação constante. Com a consciência de que é longo o percurso, difícil a caminhada e muito acentuada a acomodação de Coimbra a um rumo e a um destino que arrisca a inferiorizá-la quando a olhamos à luz de outros tempos, mesmo relativamente recentes. Quando Mota Pinto disse, um dia, em alto e bom som, que tinha as chaves do carro no bolso se lhe não ouvissem as suas discordâncias e os seus propósitos, era com o país que estava preocupado e não com a carreira política que para si só fazia sentido se fosse ao serviço de Portugal. Quando Calvão da Silva, seu Secretário de Estado, disse de imediato que apanharia boleia, já Barbosa de Melo e outros estavam à espera deles no parque de estacionamento.

Permitam-nos que contemos aqui uma das muitas trocas de impressões havidas entre António Arnaut e Mário Soares que me foi contada pelo próprio Arnaut. Estava Soares a formar Governo e convida Arnaut para ministro da Saúde. Este, conhecedor do que a casa gastava, deu logo a saber que iria criar um Serviço Nacional de Saúde, medida que levantou um mundo de reacções adversas, vindas muitas delas da classe médica. A gritaria em contramão foi tanta que, uns dias depois, Mário Soares chama de novo a Lisboa António Arnaut e diz-lhe: sabes António, eu estive a pensar com mais calma e acho que tu ficavas melhor na Justiça, O que achas? Arnaut: como queiras, Mário (tratavam-se por tu). Eu tanto vou para um Ministério como para o outro. Mas se é para impedir o SNS não vás por aí, porque se eu for para a Justiça crio também um Serviço Nacional da Justiça e vais ter outra gente à perna. Esta cena passou-se mesmo, foi-me contada pelo próprio António Arnaut e publiquei-a ainda ele em vida que me felicitou pelo rigor da descrição. Todos eles, toda esta gente – os já falados e outros como o Vital Moreira, Canotilho, António Campos, César Oliveira, Jorge Leite, Lucas Pires e outros mais – era nas opções a favor do país que estavam a pensar. E não tenhamos dúvidas que nessa altura de todos estes poucos de Coimbra que haviam sido chamados a dar o seu contributo, muitos deles teriam tomado idêntica atitude se o direito à diferença de pensamento lhes não tivesse sido respeitado. Hoje quem teria coragem para uma reacção idêntica à de Arnaut, quem seria capaz de por em risco o lugar de ministro afirmando propósitos próprios e ideias diferentes?

Reconheçamos que hoje as coisas estão muito mudadas. Acomodámo-nos todos. Não reagimos. Aceitamos tudo e mais alguma coisa. Contentamo-nos em ser subservientes. Trocámos a verticalidade e liberdade de pensamento pelo dobrar bajulador da verticalidade. Estamos a nivelar-nos por baixo com outras cidades médias a que nem sempre dispensámos a consideração merecida, em vez de nos agigantarmos enquanto região e termos coragem para não aceitar que dividam o país ao meio, fixando a partir de Lisboa uma área metropolitana suficientemente invasora do espaço da zona centro, locupletando-se com os fundos comunitários, seus e nossos. Resultado: um país dos menos desenvolvidos da União Europeia, sem vergonha de nos vermos ultrapassar pela Hungria e Polónia há meia dúzia de semanas (qualquer dia pela Roménia) apesar de termos dos mais altos IRCs, muito mais que a média dos países da OCDE. A subir impostos ninguém nos bate. Eis por onde anda a nossa coragem.

Um dos exemplos claros da Coimbra acomodada de hoje está na Académica. Olhem o que fomos, vejam o que somos. Isso não é assim tão importante, dir-se-á. Claro que é. Uma terra é o seu todo, a sua força e pujança advêm-lhe de diversas dimensões, da educação ao ensino, das empresas às profissões liberais, à cultura, ao desporto, às suas escolas, seu património, suas gentes. A Académica era e foi durante muitos anos um dos nossos braços de orgulho e identidade. Deixámo-la cair e sentámo-nos nos degraus das Monumentais a navegar na crítica fácil. Não é apenas o entusiasmo do futebol, não são apenas os golos, a satisfação colectiva dos seus adeptos que estão em causa. Será que haverá quem não veja que a Académica é muito, muito mais que isso, que os chutos na bola? Que é outra forma, forma diferente e única, de pisar a relva dos relvados da vida?

Em todas as edições de aniversário o “Campeão das Províncias” elege um assunto para tema central dessa edição. Olha à sua volta e pede a algumas das muitas pessoas da nossa cidade preocupadas com o futuro para fazerem o favor de tratarem desse tema central. É um contributo pra a estimulação do envolvimento de todos nesta causa e, se bem sucedido o propósito, a nossa prenda de anos, que partilhamos com os leitores. Este ano temos a Académica. Na esperança de que novos rebentos de futuro floresçam e que tão nobre projecto desportivo não vergue. Se melhor não se conseguir, que parta, então. Quem toda a vida viveu com honra e dignidade, não sobrevive sem elas.