Coimbra  28 de Janeiro de 2023 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Jorge F. Seabra

O curador, o apagão e a exposição “Primavera Estudantil”

20 de Janeiro 2023

Impactos dos tiros da polícia nas paredes e vidros da AAC, após a repressão da manifestação frente ao Teatro Gil Vicente, na noite de 9 de Maio de 1970 (Fotos Carlos Valente e Secção Fotográfica da AAC)

No Convento de S. Francisco, em Coimbra, uma grande e anunciada exposição sobre as lutas estudantis, da Crise de 1962 ao 25 de Abril de 1974. O nome, “Primavera Estudantil”.

Para a velha tribo de estudantes que viveram essa época, o assunto ainda bate no coração, já que as recordações mais importantes de uma vida são as últimas a morrer.

À entrada, um cartaz com um grafismo moderno e apelativo. E, passado o “hall”, a exposição a alargar-se numa longa ala bifurcada em salas laterais, com documentos, fotos e textos, mais de 62 e de Lisboa, saltando 64 e 65, continuando na Crise de 69, em Coimbra.

Documentos e fotos novas ou já vistas, e o arrancar da luta, com o painel do “Peço a palavra” do Alberto Martins na inauguração do edifício das Matemáticas, a 17 de Abril, mais as legendas explicativas.

Na parede, duas filas de fotografias a ilustrar: o presidente-múmia Thomaz, estudantes e cartazes em frente às Matemáticas, o Presidente da AAC de pé, no meio da sala, as silhuetas dos GNR nas escadas monumentais, estudantes em assembleias, e … círculos pintados à volta de buracos de bala nas paredes da Associação Académica.

Espanto. Balas em 69?… Mas não houve tiros nem balas em 69! Como surge aquela fotografia ali? Engano? Uma tentativa de sublinhar a violência policial de 69, mais contida que nos anos 70 devido à “Primavera Marcelista”? Pois se única manifestação reprimida a tiro foi a 9 Maio de 70 (dezenas de disparos reais, à altura da cabeça), em que Fernando Seiça, atingido à queima-roupa, esteve às portas da morte e perdeu o baço e o rim…

Talvez a organização não saiba e baralhe tudo…. Nada de grave, deve haver outras referências aos anos 70, à frente.

Mais documentos e os célebres desenhos da Crise, alguns, dos melhores, de Carlos Santarém, o culto e bom “Menino” da República dos Cágados, falecido há poucos dias, uma implícita homenagem que traz de volta o humor e brilho da sua inteligência.

A seguir, notas biográficas com fotos e colunas de texto, salientando, justamente, três dos mais prestigiados dirigentes estudantis de 69: Alberto Martins, Celso Cruzeiro e Fernanda da Bernarda. Nesta última, um estranho “pormenor” referindo o facto de pertencer ao Partido Comunista mas ter discussões com Barros Moura e ter descoberto, depois, que também ele era do PC, mantendo, contudo as divergências.

Estranho, além do mais, porque de Barros Moura e Carlos Batista, dois dos principais dirigentes estudantis de 69 (castigados por terem discursado depois do presidente Thomaz e comitiva terem debandado da sala), nada! Nem fotografias, nem textos, nem o mais pequeno destaque. O apagamento total. Enfim, lá volta o velho “esquecimento”…

Depois, o fim da galeria onde, para além de um esquema da miríade de organizações “ML” (mais lisboetas que coimbrãs), e da foto de Ribeiro do Santos, militante do MRPP, assassinado pela PIDE em Lisboa, surge uma curta nota sobre as sequelas da Crise de 69, que fala… da Crise de 69. Quanto aos anos 70, 71, 72 (para falar só dos mais agitados), zero! Depois de 69, o vazio…

O vazio…

Da manifestação dos tiros em 9 de Maio de 70, nada! Das Assembleias Magnas (com milhares de estudantes), nada! Das greves às aulas, nada! Do inquérito judicial e da não homologação da Direcção de 70, nada! Do cerco e encerramento da AAC, em 71, nada! Das cargas da polícia dentro das Faculdades (nunca antes acontecidas), nada! Da prisão de meia centena de estudantes pela PIDE, em Caxias, nada! (em 69, devido à demagogia da “primavera marcelista”, as prisões foram feias pela PJ). Dos que sofreram tortura do sono e da estátua, nada! Da tentativa de suicídio de um deles, em Caxias, (acabando tragicamente por concretizá-la anos depois,), nada! De ter ficado em coma mais de uma semana, por atraso de evacuação pela PIDE, nada! Do julgamento de sete dirigentes, em Janeiro de 72, no Tribunal Plenário (político) do Porto, nada! Das acções de protesto e solidariedade da Comissão de Socorro aos Presos Políticos, nada! Da mais de uma centena de intelectuais, professores e estudantes que aí testemunharam em favor dos acusados, nada! Do livro “Estudantes de Coimbra em Plenário”, editado na altura, nada!

Talvez a organização da exposição pudesse ter a visão, desse início dos anos 70, condicionada pela “narrativa oficial” dos dirigentes de 69 ligados à tendência “CR” (de “Conselho das Repúblicas”), ignorando todas as outras e o que aconteceu a seguir.

Telefonema ao curador da “Primavera Estudantil” para esclarecer o injustificado “apagão”, pensando ir ao encontro do seu próprio interesse, pela reconhecida costela de historiador e estudioso. Mas, em vez do “ai sim? Não sabia…Muito interessante. Gostava de saber mais sobre o que aconteceu. Afinal, é sempre importante ouvir quem viveu tudo ao vivo, conhecer melhor o que se passou…”, chegou um, “sim, sei isso, nessa altura estava ainda a nascer mas estudei bem essa época, e sabe, a exposição veio já de Lisboa centrada em 62, eu acrescentei um pouco mais à parte de Coimbra. Mas não é a maior exposição sobre as lutas estudantis?…”

Protesto e revolta. Afinal o principal responsável da “Primavera Estudantil” conhece o acontecido nesses primeiros anos de 70 e decidiu apagar todo esse período especialmente duro para a academia, com tiros, greves, espancamentos, assembleias, prisões e tortura, sem dele fazer uma única referência? Os “vinte meses de inferno”, que deram título ao livro póstumo do reitor Gouveia Monteiro, varridos da história das lutas estudantis sem deixar rasto? Como era possível?

Desculpas…

Vieram os argumentos e as contradições: “não tinha espaço”, ´”não posso pôr tudo”, “só para isso era necessário outra exposição”, “reconheço que esse período tem ficado mais esquecido e é pouco falado para as gerações mais novas”, “e a morte de Ribeiro dos Santos, em Lisboa, não foi importante?…”

Foi. Mas, e o que passou em Coimbra? “Então, como era preciso mais espaço, apaga-se tudo e nem uma linha? Conhece os factos e achou-os sem relevo suficiente?…Não se pode compreender! Então sabe o que se passou e coloca os tiros de Maio de 70, em 69?…”

A resposta a azedar: “Assim, talvez não valha a pena falarmos. Conheço o registo!…”.

Qual registo?”. Adivinha-se o preconceito, provavelmente contaminado por uma pitada de sectarismo político, mas faz-se mais uma tentativa: “Trata-se de factos que aconteceram! Manifestações, greves, o cerco e encerramento da AAC pela polícia, prisões em Caxias, a tortura, o julgamento, custou muito a muita gente e apaga-se tudo, porquê? Por não ter sido em 69?…”

Inútil. Na tão anunciada exposição sobre as lutas estudantis entre 62 a 74, nada disso existiu. O apagão, já antes presente na “clássica” narrativa da crise de 69 que a dá como acabada nas vésperas da manifestação dos tiros, continua. Se na altura contassem isso, não se acreditaria.

Talvez o dolo tenha vindo de trás, na confusão do fim da crise de 69 com o fim do domínio da tendência “CR” (Conselho das Repúblicas). Mas o historiador falhou, a isenção falhou, e o apagamento dos factos para as novas gerações agravou-se com a sua contribuição. Era tão grande que não havia espaço…

Se, como é ali afirmado, a lista de todos os estudantes presos de 62 a 74 é uma forma de homenagear a luta estudantil, no que se refere aos dos anos 70, era melhor descrever o que fizeram e o que sofreram…

(*) Membro eleito da Direcção da AAC de 70 e de 71, preso em Caxias e julgado no Tribunal Plenário do Porto