Coimbra  22 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Casimiro Simões

O circo, o sapateiro e o burro

2 de Maio 2019

11 - Circo Casimiro Simões

No redondel desta noite, não há leões, nem tigres ou elefantes.

Da vila e dos lugares, mesmo os mais remotos do concelho, o povo acorre ao circo que uma vez por ano, por 10 tostões, proporciona um serão de magia sem igual.

Feliciano e Luciano, com o burro Miranda à ilharga, apresentam o espectáculo sarcástico mais apreciado dos últimos tempos.

Um é ruivo de olhos verdes, o outro orgulha-se dos longos cabelos pretos e íris a condizer.

Há muito que os gémeos não provocavam tanta algazarra, tanto falatório, num público que não têm parado de surpreender ano após ano.

O riso que produzem é de qualidade muito superior ao que as pulhas de funil e a serração da velha, com um cortiço inçado de traça a fazer as vezes da idosa, nem sempre uma Circe feiticeira do mar Egeu, oferecem habitualmente à população.

A solo, o trompetista Zé dos Touros, assim conhecido por ter abrilhantado consecutivas temporadas da festa brava no Campo Pequeno, em Lisboa, preenche os interlúdios do programa e faz a ligação musical entre os diferentes números de circo.

Ele tem igualmente carta branca para meter a colherada verbal sempre que o ambiente tal justifique, já que o vinho a copo vendido à entrada tanto pode fazer bem, como deitar tudo a perder em segundos.

O sapateiro Mário das Favas, com treino nas andanças etílicas por todos certificado, deitou abaixo uma generosa meia dúzia de tintos e brancos enquanto as portas do circo não abriam.

Sapatos de palhaço com boca de sapo

Está eufórico o artífice e tem razões para isso.

Os palhaços encomendaram-lhe dois pares de sapatos coloridos, daqueles longos de biqueira larga, tipo boca de sapo, apropriados para a arte de fazer felizes, durante escassas horas, tanto pobres como ricos.

E sua mulher, a costureira Angelina da Marcelina, também ganhou o bastante para o mês, ao confeccionar a roupa de cerimónia da domadora de serpentes, uma jovem escultural que se iniciou no meio circense, em Sevilha, com uma dramatização curta ao estilo andaluz que conjugava o idílico embuste de ler a sina com uma sensual interpretação de flamenco e sapateado.

Mário das Favas tem o odre cheio, mais uma vez!

Solta a noite morna de Setembro os primeiros vagidos, já o sapateiro cabeceia de sono e vinho na primeira fila.

Em solo fértil onde o boieiro Ataíde Paz produz todos os anos para cima de cem alqueires de pão, a que se juntam pelo menos trinta sacos de feijão branco e duzentas abóboras porqueiras, o restolho do milho faz agora cama ao chapitô dos artistas que correm mundo de casa às costas, tristezas nem sempre adormecidas no fundo da bagagem, mas, no fim de contas, livres como o vento e a bátega outonal que, lá fora, devolve a frescura aos nabais ressequidos.

O pachorrento Mário não é homem de zaragatas.

Só que, de bucha em bucha, de copo em copo, está frequentemente em camisas de onze varas sem ter corpo para as encher, tanto mais que não lhe abunda a carne sobre os ossos.

Jumento penteado de brincos nas orelhas

Mal consegue abrir os olhos. Faz um grande esforço para não perder o número por todos esperado.

Incitado pela dupla Feliciano e Luciano, o animal de Miranda do Douro protagoniza as cenas mais divertidas da noite, muito compenetrado no seu papel e sem nunca atirar com a albarda ao ar.

Os manos ordenam então ao jumento, que se apresenta bem penteado, de arreios reluzentes e até brincos nas orelhas, para indicar ao excelentíssimo público onde está sentado o homem mais bêbado da sala.

O asno, que não é burro, faz render o peixe, finge nada perceber da matéria e dá uma volta à arena com especial atenção, perscrutando no ar com as narinas os vapores do alambique.

Estuga o passo à medida que se aproxima do Mário das leguminosas, que está prestes a pagar as ditas.

O sapateiro dos palhaços está ali mesmo defronte, mais morto que vivo, meio redondo, meio quadrado.

Há um silêncio expectante no circo.

O Miranda abana a cabeça na direcção do das Favas, que já deixa cair o morrão do cigarro que tem pendurado nos queixos.

O público rejubila, explode num riso imparável.

Zurra o jerico em sinal de vitória e o próprio Mário se junta à gargalhada colectiva.

Rendido ao poder do humor, o homem da sovela cai da bancada abaixo.

PS – Homenagem à Companhia Marimbondo, que a partir da Lousã leva há 30 anos as artes circenses onde escasseia a cor e a alegria.

 

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