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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

O ciclo dos 12 dias – do Natal aos Reis

23 de Dezembro 2016
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Grupo Etnográfico da Casa do Povo de Souselas cantando as Janeiras (inauguração da Biblioteca Anexa Municipal de Souselas, 09-01-2011)

 

A comunidade cristã reconhece a importância fundamental do Natal para o ano litúrgico. Um momento festivo, onde o cristianismo e o paganismo coabitam e se complementam. Graças a recolhas efectuadas por vários grupos folclóricos e etnográficos da nossa região tem sido possível recriar e conservar algumas das antigas práticas.

Em alguns locais, a solidariedade marcava a «missa do Galo», momento em que as crianças levavam bens diversos (roupa, ovos, cereais, pão, galináceos, entre outros), que depositavam junto ao altar. No final da missa fazia-se a sua distribuição: ou de forma directa, pelas crianças mais necessitadas da respectiva freguesia ou, indirectamente, com a compra dos bens disponíveis, pelos mais abastados, revertendo o dinheiro para a assistência aos mais pobres.

Ainda mais comum pelas paróquias era o canto religioso em adoração ao Menino Jesus, o «Louvado Sejas»: Bendito louvado sejas / O Menino Deus Nascido

/ Mais o ventre que o trouxe / Nove meses escondido – os dois primeiros versos entoado pelos homens, os segundos pelas mulheres.

Importante, também, o momento da consoada (ou consoada), com a reunião da família, onde após as orações se comia o tradicional bacalhau com batatas, couves e uma cabeça de nabo, regado com azeite, seguindo-se as filhoses, broinhas e a prova da jeropiga do ano.

No mesmo sentido, a reunião do povo no adro da Igreja, em torno de uma fogueira com um grande cepo («o madeiro»), aguardando-se pela meia noite para o simbólico «nascer do menino», dobrando-se os sinos e cantando-se o bendito.

Para lá da componente religiosa, o ciclo de Natal contempla aspectos não cristãos, de origem pagã. Estes são, essencialmente agrícolas e solares, desde logo pelo facto do solstício de Inverno marcar o início do ano agrícola.

Também o «Cantar das Janeiras ou Cantar dos Reis» tem raiz pagã. O insigne etnógrafo José Leite de Vasconcelos relaciona as Janeiras com as estreias romanas, que constavam de dádivas em frutos, mel e outros bens. Já na opinião de Armando Lucerna a sua origem filia-se nas saturnais, festividades em honra do deus Saturno, realizadas entre 12 e 24 de Dezembro.

O Cantar das Janeiras, profundamente enraizado na memória do povo, era o momento oportuno para que as pessoas mais carenciadas conseguissem bens alimentares das casas senhoriais e lavradores mais abastados, protegendo-se face às dificuldades invernais.

No dia de Reis, as crianças pediam durante o dia, de casa a casa, com a sua saca, recolhendo géneros ao abrigo da expressão «dê-nos os Reis». Os mais velhos percorriam as localidades de noite, em grupos, guiados pela candeia/lampião. Cantavam de porta em porta, ao som da viola toeira, cavaquinho,violino e bandolim: Ó Senhora que lá está dentro / Assentada num esteirão / Deite a mão ao seu fumeiro / E dê p’ra cá um salpicão.

No âmbito deste ciclo, podemos incluir o presépio ou a árvore de Natal. Mas nunca o Pai Natal, uma invenção comercial da Coca-Cola a partir da figura hagiográfica de S. Nicolau, tornada cada vez mais popular nos EUA/Canadá durante o séc. XX, e que se espalhou por todo o mundo ocidental pela força de intensas campanhas publicitárias.

(*) Historiador e investigador