Coimbra  31 de Maio de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

O Chegavírus – Vent20

6 de Março 2020
O deputado do partido Chega, André Ventura, intervém durante a sessão plenária onde são discutidos e votados os projetos de lei sobre a eutanásia, na Assembleia da República, em Lisboa, 20 de fevereiro de 2020. Os deputados portugueses discutem e votam hoje cinco projetos sobre a despenalização da morte medicamente assistida. TIAGO PETINGA/LUSA

(Foto: Tiago Petinga/LUSA)

 

Os vírus andam por aí, à solta. Por vezes emergem como ameaças à saúde mundial, caso do Coronavírus (Covid-19), em vias de se tornar uma pandemia, espalhando a doença e morte através das complicações decorrentes de infeção respiratória aguda.

Os vírus, em sentido figurado, não se circunscrevem à dimensão da saúde. Em Portugal, por exemplo, temos a disseminação fulgurante de um vírus político – o chegavírus (Vent – 20). Um caso sério na nossa democracia cujos primeiros sintomas emergiram com a criação, em 2019, do partido político Chega, pelo comentador desportivo, político e professor universitário André Ventura.

Diz ele, o senhor vírus Vent-20, que não é de extrema direita. E olhando o seu currículo somos tentados a concordar: em 2013 defendeu doutoramento em Direito Púbico, pela Faculdade de Direito da Universidade de Cork, na Irlanda, na qual criticou o populismo penal e a estigmatização de minorias, revelando preocupação com a expansão dos poderes policiais.

Talvez este vírus, que nos seus primórdios parecia uma auréola de benignidade, tenha sido contagiado pela exposição mediática, ânsia de poder e culto de personalidade. O que ontem era verdade tornou-se a mentira de hoje: o chegavírus trouxe populismo, demagogia e ultraconservadorismo à discussão política.

O outrora membro do PSD, eleito deputado pelo Chega nas últimas legislativas, rasgou as páginas que escrevera sobre as virtudes do nosso regime político e passou ao ataque. No último dia de fevereiro, num comício em Portalegre perante 500 pessoas anunciava a candidatura a Presidente da República, apresentando um perigoso programa político: prisão perpétua para homicidas e pedófilos; dissolução da Assembleia da República; criação da IV República Portuguesa; ataque feroz à idoneidade do Presidente da República. A rematar em beleza disse: «sou candidato antissistema e estou-me nas tintas para a Constituição” (ver edição online do Expresso, 01.03.2020).

O Vent-20 é um vírus ideológico por natureza: entra na cabeça das pessoas, de mansinho, e diz o que elas gostam de ouvir. É um populista mascarado de paternalismo, que se prepara para condicionar a atividade dos partidos de centro direita colocando em causa a sobrevivência do histórico CDS.

Um dos seus maiores perigos advém da simpatia confessa pelo Benfica o que aumenta a perigosidade de bons resultados à escala nacional. Façamos o seguinte cálculo: se no comício de Portalegre (com 14.000 habitantes) estiveram 500 pessoas, em Coimbra (com 144 000 habitantes), poderiam ter estado 3 000 pessoas! Que outro partido conseguiria uma mobilização assim, num momento difícil para o regime democrático – envolvido em escândalos sucessivos de corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, descrédito de pessoas e instituições?

Saber encontrar um antídoto eficaz para o Vent-20 não será tarefa fácil pois ele é criativo e está em constante mutação. Não se pode proibir a sua existência política, nem condicionar a liberdade de opinião do seu líder, pois isso seria contradizer os princípios basilares da nossa Constituição.

É urgente encontrar o fio de Ariadne para esta difícil equação, antes que tenhamos pela frente uma epidemia de chegavírus (Vent-20) à escala nacional.

(*) Historiador e investigador