Coimbra  28 de Fevereiro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

André ben-Mendes

O Ceará-Grande (Brasil) nas famílias de Coimbra (Portugal) – Parte IV

4 de Janeiro 2021

Dados exaustivos, a respeito da topografia medieval de Coimbra, já foram compartilhados no trabalho da engenheira/arquiteta Isabel de Moura Anjinho, desde sua investigação original de 2016 (com o título de “Fortificação de Coimbra: das origens à Modernidade” – vide: https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/31013), acrescidas de atualizações gratuitas e mais recentes, a partir de blog (vide: https://coimbramedieval.wixsite.com/coimbramedieval/post/vale-da-ribela-i) e conta da autora na plataforma do Facebook, onde a Senhora Moura Anjinho descreve a extensão da propriedade dos judeus em Coimbra (por exemplo, refiro à série 1-6 de textos detalhados, com o título “PORTA NOVA – FORTIFICAÇÃO DE COIMBRA”, iniciando a respectiva explanação em: www.facebook.com/isabel.anjinho/posts/2220784981343127).

Segundo um prisma da psicogenealogia e da transgeracionalidade que poderia vir a orientar algumas vertentes do trabalho psicoterapêutico, a função da imagem que compartilho com Yeshurun sobre Coimbra, nesse caso, ultrapassa a descrição objetivo para repor uma camada do imaginário subtraído pela violência da Inquisição.

Assim descaracterizada da exigência de registro ou de memória (vez que sua paisagem modificada não coincide ou sugere coincidências ou sobrevivências de ordem material), de um outro ponto de vista emocional e necessariamente ancestral, a hipótese de uma porta naquela encruzilhada de temporalidades, assume uma densidade (de materialidade ontológica outra), enquanto mecanismo de origem ou recomeço.

Esse cruzamento para os lugares ou derivas, associadas com a pertinência de uma “lembrança” que foi obstruída, ocorreu-me, sobretudo, a partir de um evento no Teatro Acadêmico da mesma Cidade de Coimbra, ocorrido no mesmo Outubro (em 9 de outubro de 2020), com o escritor Dr. Gonçalo M. Tavares, a propósito de uma celebração visual-imersiva do livro (“Atlas do Corpo e da Imaginação”, publicado em 2013) que surgiu da sua Tese de Doutoramento (“Corporeidade, linguagem e imaginação”, apresentada em 2005, na Universidade Técnica de Lisboa).

Foi o Dr. Tavares que insistiu, em Coimbra, a propósito do objeto fragmentado da lembrança que não apenas circunscreve um passado, mas também, a partir da sua qualidade de ruína, de estilhaço, repõe o presente de novas origens e ficções de inícios – em vez de fantasma, torna-se projeto.

Também foi a via de sugestão debatida, na conferência de Marie de Brugerole, realizada em 7 de novembro de 2017, no Colégio das Artes da mesma Universidade de Coimbra, acerca da experimentação artística da Pós-Performance (e, de outra forma, também Giorgio Agamben, para quem a arké insere descontinuidades/inaugurais; ou ainda, na tese ecoada pelo AncestroFuturismo de Fabiane Morais Borges): a origem continuamente lança futuros!

O fragmento

Cito Gonçalves Tavares (p. 41), na partilha que reverberou oralmente, junto ao seu público recente de Coimbra:

“(…) O fragmento é, pela sua natureza, um ponto onde se inicia; um fragmento nunca termina, mas é raro um fragmento não começar algo. Poderemos dizer que o fragmento é uma máquina de produzir inícios, uma máquina de linguagem, das formas de utilizar linguagem, que produz começos – pois tal é a sua natureza. Uma primeira frase é sempre uma primeira frase: começa. Mas o início tem uma força suplementar: é muitas vezes no início de um processo que se concentra a maior quantidade de uma certa substância, que o desenvolvimento desse mesmo processo só vai diluir ou espalhar por uma extensa área. O fragmento tem essa característica: obriga o relevante a aparecer logo, a não ser adiado. O fragmento impõe uma urgência, uma impossibilidade de diferir. Um fragmento não quer que o outro fragmento que vem a seguir diga o que é da sua responsabilidade dizer. O fragmento acelera a linguagem, acelera o pensamento. Trata-se de uma questão de velocidade e mobilidade que aproxima o pensamento de uma certa urgência que existe, por exemplo, no verso. Estamos pois no âmbito dos nascimentos; o fragmento é um mecanismo de parto; de início, de começo; clínica, usemos esta palavra – eis o que é o fragmento: espaço privilegiado, especializado – clínica de nascimentos. (…)”.

A partir de uma tal face do edifício que insisto reparar (fabular) e que não poderia existir, dessa/sob essa mesma forma/ótica, em 1525, qual será, então, a natureza (o ser agônico, escópico, arcaico) da experiência a partir do que eu vejo, hoje? É uma dimensão da lembrança ou será o nosso futuro ainda cruzado, meu/Mendes e de Yeshurun/Mendes? Qual será o efeito do Longínquo… essa exposição de uma sensibilidade, se quisermos, de uma arte Longínqua sobre o imediato dos corpos de um anousim/marrano Mendes que vive em Coimbra? Quando invoco a passagem/presença de Leonor Ribeiro ou o suplício da sua tia, Leonor Mendes, ou do seu avô Moises Boino, o que escuto será o passado ou uma abertura infinita (ex-critura) de novos lançamentos/atualizações a partir dessa Cidade de Coimbra onde habito? No ainda profundo do Cemitério da Judia Velha ou atrás/através da Porta que vejo, quem me a-guarda (des-guarda, não-guarda) se não um novo futuro emitido pelas arkés?

Andre filho de Mendes (Messias) que é filho de Mendes (Benjamin) que é filho de Mendes (Antonio Lucio) que é filho de Mendes (Jose) que é filho de Mendes (Antonio Sabino) que é filho de Mendes (Inacio Neto) que é filho de Mendes (Inacio Filho) que é filho de Mendes (Inacio Pai) que é filho de Mendes (Bento). E assim, já que se passaram as dez gerações que a Inquisição buscou, no Nordeste Colonial, para avaliar a suposta pureza do cristão – de outra maneira, mantido herege (impuro) em sendo “christão-novo”; e já não seria a hora de tratarmos de quem seremos como futuro? Também Gonçalves Tavares: “clínica de nascimentos”, sobre o tecido vertido das mortes.

(*) Doutorando no Colégio das Artes, sobre a Inquisição de pessoas em Coimbra oriundas do Ceará-Brasil