Coimbra  14 de Junho de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

O altar pedagógico

28 de Março 2024

Aproxima-se a Páscoa e, com ela, as férias escolares. Mas não na Bélgica. Mais precisamente: não em toda a Bélgica. Na manta de infinitos retalhos administrativos que é a organização do país, as férias escolares não seguem um único calendário, mas dois. Por regiões? Não, por comunidades linguísticas. Assim sendo, os alunos de escolas que pertençam à comunidade neerlandófona seguem o calendário, digamos, tradicional, ao passo que os alunos da comunidade francófona seguem um calendário que, desde o ano passado, se distingue nalguns aspectos importantes.

E em que consistem as diferenças? No essencial, o novo calendário francófono pretende ser uma ode à pedagogia. Não mais as pausas lectivas gravitam em torno de eventos importantes da vida do país, mas antes em torno daquilo que pedagogos e especialistas (?) consideram ser o melhor ritmo de aprendizagem das crianças. Destarte, as crianças não têm mais do que oito semanas seguidas de tempo lectivo, que haverá que intercalar com pausas dignas desse nome, idealmente de duas semanas. Assim, o ano lectivo inicia-se em finais de Agosto, de modo a que dois meses depois haja duas semanas de férias que coincidem com Todos-os-Santos. Mais oito semanas de aulas, interrompidas por duas de descanso por altura do Natal. Mais oito semanas de aulas, ganhando os alunos direito ao seu repouso de duas semanas, que não coincide nem com o Carnaval nem com a Páscoa. Mais adiante o mês de Maio oferecerá mais duas semanas sem aprendizagens escolares, e no fim, naturalmente, tudo encerrará com as férias de Verão. Bem dissociadas da vida cultural do país, as férias chamam-se Pausa de Outono, Férias de Inverno, Pausa de Descanso (sim, assim mesmo, por incrível que pareça), Férias de Primavera e Férias de Verão.

A Páscoa fica assim mirradamente assinalada no calendário do país. Compreensivelmente, os pais não podem marcar férias dignas desse nome para esta altura do ano, já que as crianças estão em aulas até Sexta-Feira Santa inclusive, e só a Segunda-Feira de Pascoela é feriado. Esta abordagem, em nome da pedagogia, sacrifica as tradições religiosas e culturais do país em nome de uma putativa (mas duvidosa) pedagogia. Ainda que se demonstrasse que a capacidade de aprendizagem das crianças fica diminuída após mais de oito semanas de aulas seguidas, será que alguém ponderou o que significa perder o tempo de férias num momento tradicionalmente relevante como é a Páscoa? A questão, muito mais do que religiosa, é cultural. Os dias feriados não são aleatórios (embora hoje haja quem queira fazer deles uma espécie de “vales de desconto” junto da entidade patronal, podendo ser gozados aqui ou ali, sem grande ligação com o dia comemorativo) e são uma manifestação do cimento cultural que une uma dada comunidade. Desconsiderar a Páscoa e tratá-la como um mero feriado no calendário, que calha numa qualquer segunda-feira, é atirar pela janela a cultura e a tradição. A pretexto de quê? De tornar as crianças melhores máquinas de aprender, em cujas cabeças se enfiam Matemática, Literatura, Ciências – e a cultura, essa, com sorte, figurará um dia numa página de um livro de História. Parece que viver a cultura está a atrapalhar, pelo que é preferível sacrificá-la.

Uma Feliz e Santa Páscoa a todos.