Coimbra  25 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Nos bastidores do 29.º Congresso do CDS

8 de Abril 2022

A escolha não foi ao acaso. Guimarães, berço da nacionalidade, possuía um alto valor simbólico para a desejada reentrada na cena política: a derradeira tentativa de refundar um partido fundamental da nossa história democrática, cujo desaparecimento parlamentar permitiu, em sentido inverso, a ascensão de derivas perigosas, assentes no populismo e demagogismo.

Fui como convidado e numa iniciativa atípica, na peugada de uma antiga reminiscência familiar, onde meu avô a determinada altura da sua vida se reviu nos ideais do conservadorismo cristão. Como em todos os partidos há gente boa, que sente e vive os ideais de forma pura, e é para esses que deixo o meu agradecimento pela forma como fui tratado. São raros, porém, pois importa mais o desfile individual do que a discussão de projectos e ideias em prol do colectivo – um mal geral dos nossos partidos, que tem vindo a afastar do espaço público e político, muita gente capaz, com valor, séria e honesta.

Os congressistas, em especial os que sentem o partido, acorreram em massa e vindos de todos os pontos do país. Não se estranha, pois, a tensão que desde o início marcou os trabalhos, e que se renovava a cada nova intervenção mais calorosa no palanque. Cedo se viu como o divisionismo reina entre a militância, com vários grupos que não vou aqui inventariar, até porque os não conheço suficientemente, mas que entre si reivindicam papéis de liderança ideológica – e outros mais mesquinhos – ávidos de protagonismo e que são capazes de dizer coisas absurdas como “esta é a minha casa”, como se estivéssemos perante uma coutada, granja ou casal, sob a égide de um senhor feudal – e não num espaço livre de interacção entre convidados e congressistas, uns e outros portadores de tendências variadas. As coisas que uma pessoa escuta e vê num congresso…

Falemos, primeiro, de Francisco, que deixou a presidência do CDS cabisbaixo, num discurso onde foi perceptível que detém, apesar do fim precoce, uma significativa legião de admiradores. Talvez por isso, e temendo alguma diminuição inesperada, Nuno Melo – vencedor há muito antecipado – tenha sentido a necessidade de tomar o pulso ao congresso, quando o seu antecessor deixava a sala sob um forte aplauso, com as palmas e holofotes a transferirem-se, acto contínuo, para o novo líder.

Bonito, mas muito difícil, ou quase impossível pela forma como se faz política, teria sido Francisco e Melo entrarem juntos e saírem lado a lado – em nome de um partido que não desejam que se fragmente ainda mais. Porém, entre nós tem vingado a máxima de “rei morto, rei posto” e quem vier a seguir que feche a porta!

Ao CDS e a Nuno Melo em especial está destinada uma tarefa hercúlea. Como recuperar terreno perante a ascensão vertiginosa do IL e Chega? Como fazer regressar o eleitorado perdido e credibilizar uma ideologia que parece destinada a uma matriz familiar e colegial? Como chegar ao dia a dia das pessoas e colher a simpatia que hoje Ventura ou Cotrim com um piscar de olhos arrebatam?

Melo chegou ao congresso ao volante de uma Renault 4L branca, exemplarmente estimada. Cor da paz e veículo que nos transporta para o passado. Se a paz se esclareceu no momento mais emocionante do congresso – a sentida e prolongada homenagem ao povo ucraniano – já o regresso ao passado é dubitativo. Ao portismo do Paulo que tudo secou? Às coligações com um parceiro cítrico que não sabe ainda para onde se virar, depois de um líder autoritário que fala mais alemão do que português?

Feitas todas as contas é lícito poder afirmar que o CDS tem, como não tinha há muitos anos, um verdadeiro líder, sufragado com quase 75% dos votos. Melo, com uma imagem muito socialista na forma de estar, a fazer lembrar o pioneirismo do hoje mal-amado Sócrates, proferiu um excelente discurso, elegante, cativante, europeísta sem deixar de estar focado no território político nacional.

Um discurso bem diferente dos 10 minutos em que estivemos a conversar no Sábado à noite, quando descíamos a escadaria do multiusos, onde vi um homem pressionado, preocupado com alguns ataques feitos a si e aos seus em pleno congresso e que nas suas palavras «não tinham sentido e contrariavam todo o esforço de união que há semanas vinha promovendo».

Não sendo o CDS a minha área política, mas onde tenho alguns amigos e conhecidos, desejo, em nome de uma democracia mais justa, plural e equitativa, que consiga regressar ao espaço parlamentar e se mantenha como referência autárquica, funcionando como barreira aos extremismos que tanto mal nos têm feito e cuja ameaça parece dar sinais de continuidade.

(*) Historiador e investigador