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João Pinho

Nos 30 anos do desaparecimento (1988-2018): Uma rua para Carlos Paião!

31 de Agosto 2018
Carlos Paião

Carlos Paião fotografado em 1981 (Arquivo Global Imagens)

 

Introito

Nem toda a gente sabe que Carlos Paião, um nome lendário na música portuguesa pop rock, nasceu, acidentalmente, em Coimbra, a 01.11.1953, filho de um piloto da barra e de uma professora. E este facto, justifica, a meu ver que se atribua a esta figura insigne da nossa cultura uma artéria em Coimbra que perpetue o seu nome.

No momento em que escrevo, desconheço em absoluto, se a Câmara Municipal de Coimbra tem em funcionamento a Comissão de Toponímia, embora saiba que noutra reencarnação teve grande fulgor – “velhos” tempos em que muito se fez em prol da nossa história e cultura, diga-se, em abono da verdade.

Sumário Biográfico

Carlos Paião, como é sabido, faleceu em circunstâncias dramáticas, a 26.08.1988, cumpriram-se agora 30 anos. Vítima de um violento acidente de viação, quando se dirigia para um concerto nas festas em honra de S. Ginésio, em Penalva do Castelo.

Nessa altura, o cantor e compositor português, era já um nome consagrado no panorama nacional. Licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa (1983), optou por se dedicar, exclusivamente, aquilo de que mais gostava: a música.

Em boa hora o fez, uma vez que o seu génio criativo produziu mais de 300 canções, a título individual ou para outros artistas tais como: Herman José (A Canção do Beijinho, 1980 ou as músicas e letras para a emblemática figura de Serafim Saudade), e Amália Rodrigues (O Senhor Extra-terrestre, 1982).

A sua curta, mas intensa carreira traduziu-se em dois álbuns, hoje raros, valiosos e de culto: Algarismos (1982) e Intervalo (1988).

Alguns temas permanecem no imaginário de muitos portugueses que partilharam os seus anos dourados, infelizmente, demasiado curtos. Quem não se recorda dos temas: Play-Back (que venceu o Festival RTP da Canção, em 1981, à frente de nomes em ascensão como as Doce ou José Cid); Vinho do Porto, Vinho de Portugal (em dueto com Cândida Branca Flor, 1983); Pó de Arroz, Marcha do Pião das Nicas, Telefonia ou Cinderela.

Muito se especulou sobre a sua morte, talvez porque a morte, em idade precoce, suscita dúvidas acrescidas e necessita de explicações. O seu corpo foi sepultado em S. Domingos de Rana (freguesia de Cascais) tendo sido trasladado para o cemitério da freguesia de S. Salvador (Ílhavo), terra de seus pais – onde viveu durante a infância e adolescência e escreveu a primeira quadra e primeira composição.

Vários artistas portugueses o têm como referência, caso do “cantautor” Tiago Bettencourt. Em 2003 foi editada uma compilação comemorativa dos 15 anos do seu desaparecimento e, em 2008, um álbum de tributo. Mais recentemente, a Orquestra Filarmónica das Beiras prestou-lhe significativa homenagem em Anadia (2016).

Proposta

Nascido em Coimbra, Carlos Paião está unido no material e imaterial, à cidade que ostenta os pergaminhos da Cultura, do Conhecimento e da Canção de Coimbra. Esta ligação deve ser estimulada e elevada à condição de uma condigna homenagem a um nome grandíssimo da cultura portuguesa – estando certo que tal decisão seria do agrado da maioria dos conimbricenses e dos apreciadores de boa música nacional.

Reafirmo pois, a minha proposta: que se atribua a Carlos Paião uma rua ou avenida em Coimbra – não um beco qualquer ou travessa, ou artéria na periferia, que em nada engrandeceria o homenageado e nos desprestigiaria pela pequenez apresentada – modo de funcionar em que Coimbra é tanta vez ridiculamente prolífica.

(*) Historiador e investigador