Coimbra  18 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

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João Pinho

Nos 100 anos da ACM de Coimbra: A cidade e os poetas

15 de Março 2018
ACM Poetas

Momento do debate – A Cidade e os Poetas – promovido pela ACM

A relação da cidade com os poetas e dos poetas com a cidade foi o tema da palestra de António Pedro Pita, professor catedrático na Universidade de Coimbra e antigo delegado regional de Cultura do Centro, realizada no passado dia 08. Uma iniciativa que decorreu no salão nobre no âmbito do centenário da ACM de Coimbra e enquadrada, como referiu Fausto Carvalho, presidente da instituição «no apoio à construção da cidadania através da cultura».

O mote da sessão seria lançado por Teresa Portugal, vice-presidente da ACM, após apresentação do orador convidado: «Será que os lugares entram no mundo de paixão dos poetas?» indagou aos presentes.

Pedro Pita acabaria por responder não só a essa pergunta mas a tantas outras a partir duma longa reflexão, de natureza filosófica, literária, estética e política, a que designou como “Hipótese” e que traduz na verdade uma realidade: «Há uma imagem de Coimbra que se foi cimentando ao longo dos anos e que mantém uma longevidade que parece constituir-se como história autónoma. Imagem mitificada que se sedimentou muito cedo e que chegou até hoje por duas razões:

a) Pelo papel de artificies desempenhado pelos poetas nesse processo;

b) Pela natureza do Mondego, simultaneamente, a chave, o eixo organizador, a inspiração e o núcleo de Coimbra».

Remetia assim para a riquíssima simbologia do rio e das experiência simbólicas, para as ideias de passagem e do fluir onde o movimento das águas reflecte «a eternidade que flui por contraponto ao Mondego dos tumultos que não é poetisável», assinalou.

Pedro Pita acentuou o facto de Coimbra emergir na poesia como o «objecto do amor absoluto na singularidade da cidade» cuja mensagem e importância se colhe na renovação da Canção de Coimbra. A este propósito deu, como exemplo, as composições de Manuel Alegre e António Portugal ou o temas Saudades de Coimbra, interpretado por Edmundo Bettencourt nos anos 30 e, em 1981, por José Afonso.

A relação da poesia e dos poetas tanto com o milagre das rosas como nos amores de Pedro e Inês foram também assinalados na sessão.

Numa tentativa final de sintetizar a sua explanação deixou aos presentes a ideia forte da sua intervenção: «Os poetas inventaram Coimbra, referida como Mito, que é a única que existe, que não necessita da vivência diária. Coimbra que os poetas inventaram ou que é invenção dos poetas, marcada pela saudade e pelo regresso. A outra é a que se deixa, esquecida, passageira», realçou.

O orador, antigo delegado regional de Cultura, recordou, também, a importância dos movimentos editoriais para a literatura do séc. XX, chamando a atenção para a necessidade urgente dos agentes culturais salvaguardarem «a valorização do poético/literário como eixo estratégico de afirmação da cidade através, por exemplo, da criação de um centro interpretativo».

O evento foi abrilhantado pela presença da Companhia Bonifrates, a «cooperativa de projectos e de afectos», cujos elementos declamaram vários poemas de Afonso Lopes Vieira, Miguel Torga, Nuno Júdice, Fernando Assis Pacheco e Vitor Matos e Sá, entre outros.

(*) Historiador e investigador

 

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