Coimbra  22 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Monumento ao “Mata-Frades” por inaugurar há 105 anos

29 de Maio 2018
17 - Estátua de Joaquim António de Aguiar

Monumento público em homenagem a Joaquim António de Aguiar, vulgo “Mata-Frades”

 

Quem conhece Coimbra, mesmo que em traços genéricos, sabe que no centro do largo da Portagem se situa uma estátua em homenagem ao estadista Joaquim António de Aguiar. Natural de Coimbra, onde nasceu a 24.08.1792, tendo falecido no Barreiro, a 26.05.1874 (cumprem-se no próximo sábado os 144 anos da sua morte), aqui se doutorou em Leis pela vetusta Universidade, em 1815.

Cedo abraçou os ideais liberais e combateu os absolutistas, tendo sido um dos 7 500 “bravos do Mindelo”, corpo expedicionário que desembarcou na conhecida praia do Porto, em 1832, momento fundamental para a expulsão do absolutismo do território de Portugal continental.

Em 1833, seria nomeado ministro do Reino e, posteriormente, ministro da Justiça. Neste âmbito elaborou e ordenou a execução do célebre decreto de 30.05.1834 – que lhe valeu a alcunha de “Mata-Frades” – pelo qual se extinguiram as ordens religiosas em Portugal, integrando os seus bens na Fazenda Nacional. Uma medida que rivalizaria, em impopularidade, com outra que também mandou empreender; a conhecida reforma dos municípios e do poder local.

Em homenagem ao seu papel de estadista, a Câmara Municipal entendeu fomentar a construção de um monumento público que o perpetuasse, dando sequência a um movimento anterior, ancorado numa comissão que havia promovido a construção do seu mausoléu no cemitério da Conchada.

Assim, por deliberação camarária de 09.11.1911, lançaram-se os alicerces da sua estátua, sita no largo da Portagem (então designado como largo de Miguel Bombarda), tendo como objectivo enaltecer “o grande patriota Joaquim António de Aguiar”.

No entanto, os trabalhos prolongaram-se para lá do previsto, chegando o assunto a ser discutido em reunião conjunta da Câmara Municipal de Coimbra com a Sociedade de Defesa e Propaganda, no ano de 1912, – que pouco efeito teve, na medida em que os trabalhos de assentamento apenas se concluíram a 21.06.1913.

O projecto envolveu conceituados artistas numa parceria pouco vulgar: a estátua foi executada pelo escultor Costa Mota, o pedestal em pedra de lioz foi elaborado pelo arquitecto Silva Pinto e a grade em ferro forjado, que circunda o monumento, foi desenhada por António Augusto Gonçalves e executada por António Maria da Conceição, pelo valor de 297$60. Na base colocou-se o brasão de Coimbra, em pedra.

A estátua em bronze simboliza o momento em que Joaquim António de Aguiar assinava o decreto da extinção das ordens religiosas, que em Coimbra atingiu oito conventos e 22 colégios. Nada foi deixado ao acaso do ponto de vista estético e plástico: voltada para Poente (Santa-Clara), marca o centro do largo da Portagem, assumindo-se como referência ao olhar pela envergadura – sendo, na realidade, uma das mais bem conseguidas estátuas da cidade.

Contudo, o insólito marca esta estátua. Apesar de concluída há 105 anos, nunca foi inaugurada. Uma curiosidade que acabou por ser incluída no Cancioneiro Tradicional de Coimbra, plasmada na seguinte quadra:

«Mata-frades imperfeito

Lá está de pena na mão

Para escrever a preceito

A data da inauguração!»

Haverá ainda tempo, espaço, ou oportunidade para uma inauguração, preferencialmente com uns meses de antecedência face às próximas eleições autárquicas?

(*) Historiador e investigador

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