Coimbra  1 de Março de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Ministra, ajude-nos a ajudar!

21 de Janeiro 2021

Estamos em tempo de recordes, infelizmente de má índole, seja em números de mortes e em número de casos diários de positividade a SARS COV2, seja em rankings de país do mundo com maior número de casos por milhão de habitantes e quase o maior em taxa de mortalidade por COVID-19.

E estamos também no record de falta de civismo, quando após ser decretado um confinamento obrigatório (ou mesmo antes, por bom senso), vemos milhares e milhares de pessoas a passear, a “espairecer”, até mesmo a vegetar (alguns muito menos a exercitar), “aproveitando” o fim de semana, como se não importasse o fim de semana para o vírus e para a morte, e ausentando-se quando até pediram o voto domiciliário.

Os decisores demonstram irritação, fazem apelos à contenção, tomam medidas de ocasião, invetivam os prevaricadores, não controlam a pandemia do século, no que é não controlável, mas também no que podia ser controlável, caso houvesse aplicação do conhecimento, respeito pela ciência, colaboradores sem bajuladores nem dependentes (e sem necessidade de “emprego”), medidas profundas e firmes.

Estamos à beira da salvação, sujeitos a morrer na praia. A vacinação (também em tempo record) traz-nos a esperança de uma vida quase “normal”, mas mais uma vez, o critério “idade” para a prioridade na vacinação utilizado na Alemanha, França e Reino Unido é secundário em Portugal, enquanto já se suspeita que se prepara com desplante e despudor uma prioridade para a vacinação de titulares de cargos públicos, em flagrante desrespeito pela vida humana dos “outros”.

Demagogia (e egocentrismo e populismo, sim) é considerar que a vida de quem exerce cargos públicos em política (por mérito ou por compadrio, por eleição ou por nomeação, por ser útil ou ser-lhe útil) é mais importante que a de qualquer pessoa, seja doente crónico ou aparentemente saudável, doutor ou sem abrigo, cada um no seu lugar, sem privilégios ou vítima de infortúnio.

A ministra apela “por favor” a que, como cidadãos, ajudemos. Mas após o seu intenso trabalho e a saída do pedestal, ministra, ajude-nos a ajudar, tome mais medidas, aconselhe a chefia, aconselhe-se com quem não precisa de si, mas sabe o valor da ciência, da clínica, da humanidade.

Decisores, “por favor”, encerrem as escolas, adiem as eleições presidenciais, limitem fortemente a actividade económica sem a estrangular, apoiem quem sofre de doença, de fome, de desemprego e de desespero, reforcem os serviços públicos de saúde, envolvam a componente privada do sistema de saúde.

Não se inventam mais médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos de diagnóstico e terapêutica, assistentes administrativos e operacionais e outros técnicos. Mas considerá-los abstratamente como profissionais de saúde, como se fizessem apenas a sua obrigação (que o é), e tratá-los apenas como se fossem números, não valorizar a sua competência, permitir que tenha de haver selecção de doentes a salvar, não será a atitude mais conciliadora e compreensiva para quem gere um Ministério e pede ajuda. E que dizer da ausência de resposta à disponibilização de 7.000 médicos que estão fora do SNS através da respectiva Ordem, que terá sido feita em Maio de 2020?

Como medidas em saúde, teste, teste, teste cada vez mais. Não desperdice rastreios epidemiológicos nem estruturas de retaguarda. Reabra os Serviços de Atendimento Permanente nos Centros de Saúde, que descongestionarão os hospitais em falsas urgências e muitos doentes não-COVID. Permita que os médicos de família sejam médicos de família e não apenas telefonistas e burocratas, de portas semicerradas, e divididos em médicos de primeira e de segunda, consoante o modelo de “organização”. Dê também condições de contratação aos hospitais para os vários sectores profissionais e não se preocupe agora com os (burocráticos) concursos para consultor. Responsabilize os quadros intermédios que nomeou, decerto por merecerem a sua confiança. Compreenda ainda que a exaustão profissional provoca o erro e mata, pelo que proteja quem cuida dos cidadãos. Assim, ajuda-nos a ajudar.

Os cidadãos ajudarão ficando em casa, as forças de segurança ajudarão controlando os infratores, os referidos profissionais de saúde e outros cuidadores cuidarão dos necessitados, os doentes (COVID e não-COVID) procurarão cuidados em saúde no local próprio, o processo de vacinação ajudará continuando sem desvios de percurso e com rapidez e rentabilidade metodológica, a comunicação social ajudará transmitindo formação e selecionando informação, as famílias não se tornarão instáveis ou desequilibradas e as crianças adquirirão maturidade cívica, pedagógica e crescimento ordenado.

De facto, é insuportável constatar o registo diário do número de mortes (já superior à guerra colonial) e número de casos COVID-19 que nos envergonham, humilham e fazem sofrer, estar à beira do colapso de um direito humano que é a saúde (a que se seguirá a debilidade da economia e a instabilidade social), pelo que as medidas úteis são as medidas necessárias, as decisões deverão ser porque são inevitáveis e não porque são impostas, a ajuda de cada um (decisores e cidadãos) será a peça do puzzle que se construirá, o círculo que se completará e o conforto que se dará ao combate à pandemia.

Ao contrário, porque estamos a lidar com vidas de pessoas e morte, caso os limites sejam atingidos, a rutura seja consumada e a catástrofe esteja instalada, será altura de dar lugar a novos protagonistas, novas competências e nova dinâmica de coesão.

(*) Médico e eleito do PS na AM de Coimbra