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Semanário no Papel - Diário Online

 

Casimiro Simões

Metro assinala 21 anos com marcha-atrás

14 de Junho 2017
5 - Metro

Na “Baixa” de Coimbra, o monumento da história trágico-rodoferroviária

 

Republicano determinado como já não há, cabelo quase todo preto, aos 101 anos, como a mãe que muito amava.

Honrado cidadão, rijo como o tronco do castanheiro que agora lhe dá sombra no quintal, Zé do Galho não está nada surpreendido com o enésimo anúncio de uma solução para o Ramal da Lousã e para a cidade de Coimbra.

Este processo tortuoso conhece-o como os dedos das mãos: – O metro ardiloso, mais caranguejo do que caracol, foi a gota de água que me levou, em 2006, a sair do partido – recorda, mais veloz nas lembranças do que o eléctrico rápido, que foi metro ligeiro e tram-train, sem nunca fazer faísca entre Coimbra e Serpins.

Passaram dois lustros bem medidos. No dia de S. João, o bisneto do velho, Miguel Antunes Machado, de seu nome muito curioso, faz 21 anos.

Tantos como aquele sopro imaginário sobre carris, moderno, confortável e seguro!

Enguia que escorrega, megalomania criada por direitas e centros, alimentada por algumas esquerdas, mas que, ao cabo de uma centena de estudos e projectos, apenas derreteu dinheiro ao erário público e deixou as populações de mãos a abanar.

Está um homem feito o descendente do Ti Galho, a escassas semanas de concluir a licenciatura de Engenharia Civil, na Universidade de Coimbra.

– O Miguel veio ao mundo no momento em que, talvez inebriados com as sobras de cerveja da Queima das Fitas, os dirigentes do arco sanjoanino olhavam as serenas águas do Mondego, julgando que o metro iria emergir do fundo lodoso, qual monstro de Lochness, mito que tresanda ao puro malte de Glasgow.

Metro coimbrão e bicharoco escocês povoam mentes de fé, ao mesmo tempo que fazem ranger os dentes dos mais incrédulos.

Filho da neta mais velha do Ti Galho, que na escola foi companheira de carteira do autarca Ladino, Miguelito nasceu na madrugada de 24 de Junho de 1996.

A sociedade Metro Mondego (MM) tinha sido constituída um mês antes, em 20 de Maio desse ano.

O jovem ouve falar do metro – e agora do autocarro alegadamente imposto por Bruxelas, que talvez não goste de transportes ferroviários modernos, mesmo que ligeiros e ambientalmente sustentáveis – desde o primeiro embalo no colo da mãe.

E depois no berço de madeira, na familiar cama de ferro dos primórdios da República, com barrete frígio e compasso maçónico, e no colchão sobre o soalho da casa comunitária de estudantes que o acolheu, na “Alta”.

– Mondego, meu felpudo, muito cuidado. Não atravesses a linha quando ouvires o silvo do treme-treme, que te corta ao meio na primeira curva – gritava o republicano, há 11 anos, a avisar o cão, nascido na Serra da Estrela, onde o mais longo rio português dá igualmente os primeiros vagidos.

Miguel Antunes Machado tem ponderado – tem equacionado, como prefere dizer o autarca Ladino – ingressar no mestrado em Mobilidade Urbana, só que este é mais um dos cursos “não conferentes de grau académico” que uma universidade anuncia para o próximo ano. O quase mestrando tem de ir pôr os ovos a outra galinha.

Recusa o risco de esperar mais 21 anos pelo comboio de autocarros (como diria o jornalista Fernando Moura) que o Governo e os municípios, assessorados pela MM, em fase de migrar para o metro calçado de borracha, acabam de mandar para a ferrovia que ligou Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã, entre 1906 e 2010, quando o virtual Sistema de Mobilidade do Mondego (os afluentes Dueça e Ceira, esses, não contam para nada!) ditou a tragicomédia do Ramal da Lousã.

Bisneto do Ti Galho tem a idade do metro

– Uma história trágico-rodoferroviária que vem do século passado, em que o desenvolvimento naufraga e fica o povo a ver navios. “A tragédia do metro do Mondego”, como o catedrático Carlos Fiolhais designa a longa marcha da impunidade! – vergasta Zé do Galho.

Há dias, no jornal Público, o cientista de Coimbra fez descarrilar “uma solução desengonçada, com pneus em vez de carris”.

O metropneu, como o batizou, teve direito a tripla apresentação do Governo, com a bênção dos autarcas locais, os três do PS, que sorriram, ainda que amargamente, na hora de impor ao povo nova malga de cicuta.

Em nome de uma ética antiga com impulso universal, da sua própria liberdade de pensamento e de decisão, Sócrates preferiu morrer envenenado a ter a língua cortada por sentença do tribunal.

– Sócrates, o grego, não vendeu a alma ao diabo! – realça o bisavô do engenheiro Miguel Antunes Machado. O Ti Galho detesta andar com arcas encoiradas.

Com fel a escorrer da boca, vasculha o baú a ver se encontra um texto que mandou publicar na imprensa, em 2010, logo que Sócrates, o luso, ordenou a suspensão das obras no Ramal da Lousã.

– Cá está ele, Miguelito!

O rapaz cresceu à espera do metro que o deveria levar diariamente para a Universidade, mas nunca levou. Como muitos da sua geração, caiu durante anos na esparrela.

Tinha a cabeça feita pela propaganda e chegou a afirmar que o patriarca da família era avesso ao progresso que o novo meio de transporte iria induzir na região.

– Desculpe, meu avô. Percebo hoje a sua mágoa e a sua revolta.

Com brilho nos olhos baços, Zé do Galho relê então a prosa que há sete anos lhe trouxe tantos dissabores, intitulada “Encher pneus no metro ligeiro”.

Gastar dinheiro a desunir concelhos

“Tragam à mente prodigiosa um autocarro esguio, a andar cá e lá no canal que funcionou mais de 100 anos como linha ferroviária entre Lousã e Coimbra B.

– Ele vem aí! – lê-se nalguma imprensa.

Imaginem autarcas e outros políticos à espera do fantasmagórico veículo calçado de borracha no dia da viagem inaugural.

E não é que – segundo o demissionário presidente da MM, Álvaro Maia Seco – há no Estado quem, fazendo tábua rasa do Estado de Direito, ignorando contratos e estudos feitos, queira colocar uma camioneta na linha em vez do metro, ímpar embuste que, também ele, assumiu a expressa vontade de matar para sempre o velho comboio da modernidade?

Ei-lo nas suas rodas silenciosas, apitando nas curvas para enxotar galinhas que cacarejam, asnos que zurram de espanto em cada passagem-de-nível sem guarda, bois que partem a canga na lavoura primaveril e logo se atravessam no asfalto rodoferroviário para, como Sócrates, o filósofo, morrerem voluntariamente, digamos, debaixo do bus aveludado!

Como é belo o autocarro, atropelando veados na Serra da Lousã, nos túneis ainda com fuligem do primeiro comboio a vapor.

Ei-lo na ponte da Portela, equilibrista do circo Mariano, ou na ponte em curva de Serpins, afugentando gaivotas esfaimadas que alvejam nas chulipas e corvos-marinhos invasores que negrejam nos açudes do Ceira em busca de peixe fresco.

Então Fernando Carvalho, oito anos na administração da Metro Mondego, não iria esperar o metro em Serpins, em 2010, já longe da Câmara da Lousã?

A MM será extinta com a previsível aprovação na especialidade do Orçamento de Estado para 2011. Não deixa saudades.

Um amigo recomendou-me que revisse um vídeo do “Diário As Beiras” sobre o levantamento dos carris, em Serpins, em Dezembro de 2009.

Lá estão os autarcas Fernando Carvalho, do PS, e a vizinha de Miranda Fátima Ramos, do PSD, ambos economistas aptos a antever, não duvidamos, as perigosas curvas da ciência económica que domina, mais do que nunca, a existência colectiva dos portugueses.

Carlos Encarnação, presidente social-democrata da Câmara de Coimbra, não comparece ao enterro.

Mas também nenhum governante, nem sequer Sócrates, então primeiro-ministro, avaliza com a sua presença o toque a finados que faz sorrir o autarca da Lousã, pelo menos no vídeo.

Carvalho congratula-se com o arranque dos trabalhos e da infraestrutura: “Finalmente!”. Fátima está “bastante satisfeita”, embora com receio do futuro.

Quando era governador civil, Horácio Antunes assegurou que, em 2004, o metro iria transportar adeptos para o campeonato europeu de futebol, no Calhabé!

Muitos milhões de euros foram já gastos nas obras do Ramal da Lousã e na destruição de uma parte importante da Baixa de Coimbra.

Asfalto por cima de tudo, para passar um autocarro, é retrocesso e desperdício”.

Miguel Antunes Machado ouve estarrecido o testemunho do bisavô.

– Há sete anos, estava o metro em rota de colisão com Sócrates, Álvaro Seco bateu com a porta na MM e regressou à Universidade. Carvalho e Horácio estão reformados da política. O filho de Horácio, Luís, lidera a Câmara da Lousã e preside à assembleia geral da empresa pública. Fátima, deputada, tenta regressar à Câmara de Miranda nas próximas eleições. O irmão, Jaime Ramos, concorre pelo PSD em Coimbra, contra o socialista Manuel Machado, sempre MM – rebobina Zé do Galho.

Em 2012, Encarnação e João Rebelo, actual administrador da MM, publicaram o livro “Como não decidir uma obra pública”, em que criticam severamente o processo iniciado, em 1994, com a publicação do diploma que criou a sociedade, no último Governo de Cavaco Silva.

Inspirado no lema da Metro Mondego, mas ao contrário, Miguel Antunes Machado vai contar os 21 anos da sua vida em livro: “Como gastar dinheiro a desunir concelhos”.