Coimbra  20 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Memória das primeiras eleições autárquicas em Coimbra

19 de Janeiro 2017

 

16 - OP Joao Pinho 40 anos poder local

Maria Judite Mendes Pinto de Abreu – primeira presidente da CM de Coimbra eleita democraticamente – presidindo à mesa de honra nas jornadas de folclore em 1979

As primeiras eleições democráticas para os órgãos locais realizaram-se a 12/12/1976 e constituíram um facto da maior importância para a vida dos portugueses e para a democracia em construção. A imprensa foi o veículo principal de mobilização popular que se traduziu na ida às urnas de seis milhões de portugueses.

Acreditava-se, convictamente, que a descentralização e regionalização seriam as grandes conquistas pós-eleitorais: «Construir uma forte administração municipal e de freguesias é condição do nosso futuro democrático. As próximas eleições locais servirão para as populações conquistarem a descentralização» – escrevia-se num apelo emanado de uma força política concorrente [Diário de Coimbra, 08/12/76, p.7].

Apesar de uma certa concordância política, relativamente à importância do momento, a verdade é que a instabilidade era ainda reinante. Em Coimbra, por exemplo, eram notícias de primeia página: os incidentes ocorridos no comício do PS, no Teatro Avenida, a 09/12, supostamente protagonizados por elementos fascistas; ou a tentativa gorada de fuga de um grupo de presos da Penitenciária de Coimbra após rebentamento estrondoso de um petardo audível em toda a cidade.

Não obstante o temor que pairava no ar, a votação foi calma e os jornais da época deram ênfase ao terminus de um percurso político-institucional muito desejado: «A cidade de Coimbra viveu ontem mais uma jornada democrática, procurando as urnas espalhadas pelas diversas freguesias para eleger as autarquias locais e votar a regionalização. Votando nas autarquias locais, concluiu-se a institucionalização do poder democrático no Portugal de Abril» (DC 13/12/1976).

Do acto eleitoral, o PS foi o grande vencedor, conquistando 23 das 31 freguesias (Antanhol, Antuzede, Assafarge, Arzila, Botão, Brasfemes, Castelo Viegas, Eiras, Taveiro, Ceira, Ameal, S. Martinho do Bispo, Olivais, Cernache, Santa Cruz, Sé Nova, S. Bartolomeu, Ribeira de Frades, Santa Clara, Souselas, Torres do Mondego, Trouxemil e S. Silvestre). O PSD triunfou em quatro (Lamarosa, S. Martinho de Árvore, S. Paulo de Frades e Vil de Matos). As listas de independentes arrebataram três (Almalaguês, Almedina e Torre de Vilela) e, o CDS, conquistaria a Freguesia de S. João do Campo.

Em algumas freguesias, as designações de listas unitárias apresentaram curiosos dísticos: Santa Cruz Unida, S. Bartolomeu uma vida melhor, Santa Clara rumo ao progresso, pelo progresso dos Olivais, o querer da Sé Velha e pelo progresso de Almedina.

Para a CM de Coimbra o triunfo socialista foi também expressivo, saindo eleitos: Maria Judite Pinto Mendes de Abreu (presidente, PS); António Teles Grilo (PS); Francisco Ramos de Carvalho (PS); Mário Augusto de Almeida Braga (PS); Alexandre Augusto Gouveia (PSD); António dos Santos Moreira (PSD); Basílio Filipe Barreiros (CDS); João Damasco Gonçalves (CDS) e José Júlio Couceiro (FEPU).

Esperavam os legisladores e “politólogos” da época que ao nível dos órgãos autárquicos se entrosassem as várias tendências e uma vivência democrática salutar acabando, gradualmente, com o sectarismo e ódio. Neste particular, a tarefa foi mais dura do que o esperado, pelo aparecimento de pequenos ditadores, caciques e seguidistas que têm minado o exercício da política local até aos nossos dias. Também contrariamente ao esperado, o regionalismo ou a descentralização foram enfiados na gaveta, tornando-se nos grandes fantasmas de Abril.

(*) Historiador e investigador