Coimbra  2 de Agosto de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Diniz Freitas

Meditação

29 de Maio 2021

1. Nesta minha já muito longa caminhada na caravana da vida, visiono no espelho da alma o passado, e logo desponta uma magoada saudade. Lembro gestos e laços de ternura, de afecto e de bondade. Amiúde me cruzava no caminho com a grandeza da simplicidade e a nobreza da cortesia. Os olhares, mesmo alheios, trocavam saudações amistosas, límpidas e fraternas. Partilhava-se a ventura e a dor, o sorriso e a lágrima, o pão e o agasalho, e mesmo se necessário o tecto. A gente enlaçava-se na solidariedade e no dever do bem comum. Honrava-se o Pai, a Mãe, a Família, a Pátria e Deus. Preço e valor tinham distintos significados. Optava-se pelo valor, e assim se cultivava, no jardim de cada um, a flor da honra, da honestidade, do compromisso, da integridade moral e do carácter. A pobreza material não impedia o enriquecimento espiritual. Todos buscavam viver melhor, no entanto sem atropelo, nem competição selvagem, nem inveja, nem litígio, nem ingratidão.

2. Abril trouxe a liberdade. E muito mais. Vive-se mais tempo e indiscutivelmente melhor, com mais conforto, qualidade de vida e poder de compra, do bem material e do prazer hedonista. Conhecemos o mundo sem sair de casa. Temos centenas de amigos virtuais. Devotamos horas a teclar o telemóvel e o computador. E horas a empobrecer-nos diante da TV. Vestimos marcas de elite e passeamo-nos em carros de topo. Mas… embriagados pela melopeia da novidade e da moda, que febril e sofregamente consumimos, acabamos por não ter tempo. Porque o esgotamos no doentio abismo do nosso individualismo, e por isso não raro tropeçamos no vazio, no tédio, na violência e na solidão. Não temos tempo para os filhos ( a escola que deles cuide! ), para a família, para os amigos reais, para os desprotegidos e carenciados, e muito menos para o pensamento. Porque não nos questionamos nem meditamos sobre as perguntas cruciais da vida, somos menos guiados pela razão e pelo sentimento, e bem mais pelo instinto e pela pulsão não raro irreflectida. Ou seja, deixamos às portas de Abril a herança espiritual do passado.

3. É uma falácia almejar um futuro radioso exclusivamente alicerçado no progresso material do presente. A solidez do futuro reclama a recuperação da herança espiritual e moral daquele tempo. Só com o que de melhor se colhe das raízes sagradas que alimentaram o espírito do passado, enlaçado com o que de melhor o presente nos oferece, é legítimo sonhar com um futuro firmemente edificado. Por isso, de quando em vez busquemos o silêncio e nele nos contemplemos nas nossas fragilidades e na nossa insignificância. Para sabermos quem somos, e para onde caminha a caravana onde nos integramos. E acabaremos por conceber e acreditar que não se dirige para o absurdo da morte. Porque a vida tem significado e sentido. E é este que é fundamental procurar e encontrar.

(*) Professor Catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra