Coimbra  10 de Julho de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Lino Vinhal

Matobra: Que 50 anos tão bem empregues…

13 de Novembro 2016

Devo à Matobra alguns dos bons ensinamentos da vida.  À Matobra e à sua gente, incluindo mesmo os mais humildes que pude conhecer mais de perto. E devo-lhes desde logo esta lição: o orgulho não escondido de trabalharem naquela empresa, a satisfação pela oportunidade do seu bom desempenho, a honra de pertencerem a uma elite que transpirava profissionalismo, vontade de fazer bem, preocupação de servir melhor. Esse orgulho de serem Matobra, como todo o orgulho de se ser e pertencer a entidades de referência, é a meus olhos um dos maiores  valores que enriquecem os activos éticos de uma empresa e valorizam o património afectivo de cada entidade. Recordo a história que um dia li algures, daquele soldado que em pleno julgamento e quando a sua honra estava a ser posta em causa pelos julgadores, rasga a camisa, exibe uma enorme cicatriz no peito e proclama alto e bom som “eu combati em Waterloo.” Combatera e perdera. Mas nada apagaria a honra de ter pertencido a um exército que lutara até ao fim, na firme convicção de que daria a última gota de sangue pela sua pátria.

Salvaguardadas as naturais diferenças, obviamente, eu senti esse quantum de orgulho, enorme, logo que a minha vida se cruzou por pedaços da história da Matobra. Era ela então liderada, era e foi durante muitos anos ainda, por um dos homens de quem recordo melhor memória em Coimbra e que ainda hoje considero dos seus mais capazes empresários. Claro que estou a falar de Luiz Ramos. Sem prejuízo de eu reconhecer que ele integrava nessa altura um bom naipe de  empresários, alguns ainda hoje em plena actividade, Luiz Ramos tinha em si  condições raras de liderança, aliando uma entrega sem limites a um elevadíssimo sentido de honra profissional e pessoal,  a uma visão que lhe permitia antecipar os amanhãs, como se passasse por ele a vara do destino. Não se estranhe, pois, que eu lhe impute a si, a Luiz Ramos, a matriz de uma empresa que ainda hoje, creio e sinto, não ter dado por concluído o tempo de luto que reservamos para quando nos morre parte da alma.

E não quero falar mais de Luiz Ramos. Quando se deixou morrer naquela madrugada de silêncios cúmplices, chorei como uma criança. Chorei porque sofri. Sofri  e chorei mais do que  alguma vez pensara que pudesse acontecer. Mas os estados de alma são isso mesmo: pedaços de infidelidade que muitas vezes nos expõem quando nos queremos esconder à sombra do silêncio.  Chorei e desabafei. Escrevendo. Está escrito. E o que se diz e escreve com verdade e com alma nem a esponja do tempo apagará um dia.

Mas a Matobra era mais, muito mais, que Luiz Ramos e a sua geração, de profissão e idade. Ele deixara rebentos e deixara ensinamentos. Semeara entusiasmos e confiança no futuro. Colocara as pedras do edifício por si levantado a fazer força e contra-força para que os ventos da fortuna não abalassem a continuidade da empresa. Se acaso o não disse formalmente, por falta de tempo ou oportunidade, apontara a dedo quem o deveria continuar, à cabeça de uma equipa que ele sabia ser leal à causa e aos valores da empresa. O Eng.º José Carlos Martins, seu genro e quase filho predilecto, fez bem em aceitar o repto. Se lhe tremeu a voz nessa altura, terá sido de emoção, que não de medo.  Os homens de barba rija não viram costas. Se o destino algum dia lhes quiser fazer fogo, terá de apontar ao peito. É por aí que entram as balas da honra.

E aí estão os 50 anos da Matobra. Que assinala com vigor, amassando a cultura do passado com a esperança em tempos melhores. Eu digo sem hesitações: nesse futuro melhor e para esse futuro, a Matobra vai dar preciso contributo. Desenhando a pinceladas de coragem e resistência os traços do seu próprio caminho. Eu sei e acredito que assim será. Na Matobra, como nas casas, nas instituições ou nos países, quando os pilares são feitos de honra e dignidade,  ainda que as paredes caiam, os seus filhos sentir-se-ão sempre em casa. E quando assim é, não se morre nunca. Apenas se finda o tempo.

Lino Vinhal Director