Coimbra  19 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

Maternidades de Coimbra: Ainda a propósito de coisas estranhas…

11 de Dezembro 2018

O actual edifício do Hospital da Universidade de Coimbra (HUC) foi planeado, construído e inaugurado sem contemplar uma maternidade. Por isso, ela ficou externa, na Maternidade de Daniel de Matos.

Também não estava planeada a Pediatria; por isso, ela ficou no Hospital Pediátrico, do então Centro Hospitalar de Coimbra (CHC).

Há 10 anos, tentou-se enfiar a Maternidade de Daniel de Matos, quer dizer, os profissionais e as grávidas com os recém-nascidos, dentro do HUC. Isso não foi conseguido, por falta de espaço e pelo agravamento dos problemas rodoviários e de estacionamento na zona que essa acumulação iria provocar. Numa altura em que a Maternidade de Bissaya Barreto e o Hospital dos Covões estavam em plena laboração, recorde-se.

Agora, volta-se à carga, e querem-se enfiar num Serviço do HUC não só a Maternidade de Daniel de Matos como a Maternidade de Bissaya Barreto, depois de enfiarem nesse mesmo hospital uma boa parte dos profissionais e dos doentes do Hospital dos Covões!

É estranho… Agora, cabe tudo lá? O Hospital da Universidade aumentou de tamanho? Ou é elástico?… E o estacionamento, também? E problemas rodoviários, passa a deixar de haver? Ou isso é para a Câmara resolver?… Ah , constrói-se um silo-auto. Resolve-se o problema de estacionamento do HUC. E o rodoviário?? Agrava-se?… A Câmara que resolva…

Entende-se que as maternidades devem estar perto dos hospitais gerais. Se não houvesse mais hospitais em Coimbra do que o HUC, pois teríamos de ficar com mais um serviço dentro desse já tão superlotado hospital. Mas dá-se o caso de haver, e por iniciativa, vejam lá, de Bissaya Barreto, há 45 anos! E um hospital que agora faz parte também do CHUC: o Hospital dos Covões. Com muito terreno à volta, do Estado, onde estão implantados, para além do próprio Hospital, a Escola Superior de Tecnologia da Saúde, a Escola Superior de Enfermagem, o Centro de Implantes Cocleares, o Centro do Sono, o Centro de Saúde de S. Martinho e o Instituto Nacional de Sangue. E com amplo espaço para o edifício crescer, e para muitas mais construções, e para grandes parques de estacionamento.

A proposta mais lógica parece ser a da implantação lá de uma nova maternidade, suficientemente grande para substituir as duas existentes, e em continuidade com o Hospital dos Covões. Este é um Hospital Geral polivalente, que, apesar de ter sido alvo de algum esvaziamento de profissionais para o HUC (para colmatar faltas deste, e depois da formação do CHUC), se mantém equipado e em funcionamento, totalmente informatizado, com Urgência polivalente (é o que os doentes pagam), Reanimação polivalente, Cuidados Intensivos Coronários, Hemodinâmica cardíaca e periférica,

Imagiologia, com TAC e ressonância, Endoscopia digestiva e pulmonar, Hemodiálise, Medicina Interna, Cirurgia Geral, Pneumologia, Alergologia, Cardiologia, Ortopedia, neurologistas, nefrologistas, otorrinolaringologistas, Medicina Física e Reabilitação, Patologia do Sono. E várias enfermarias equipadas vazias (!), à espera que os médicos regressem.

Não há lá despesas a fazer, há apenas a fazer regressar médicos, que foram amontoados no HUC.

Num ambiente verde, saudável, longe do bulício e da poluição do centro da cidade, com bons acessos, sem problemas de estacionamento.

Por que não instalar lá a nova maternidade?… Por que não dividir a actividade clínica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra por todos os hospitais que o compõem?…

É estranho que alguém não queira, e até seja violentamente contra!

E estranho é também que num momento de muito baixa natalidade e em que por isso se faz um esforço muito grande para que ela aumente, e se espera intensamente que isso aconteça, se fechem as duas maternidades da cidade e se acumulem os profissionais e as grávidas e os seus filhos recém-nascidos numa enfermaria no meio de um hospital, sem qualquer possibilidade de vir a crescer se isso vier a ser necessário, como muito se deseja que aconteça!

E depois, se for necessário? Faz-se mais um silo-auto?…

Há coisas mesmo muito estranhas…

(*) Médico e professor universitário

 

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