Coimbra  14 de Dezembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

Maternidade: Quem tem vistas largas em Coimbra?

18 de Abril 2018
Hospital dos Covões

Hospital dos Covões e parte do espaço envolvente

 

Parece haver quem pense que a nova maternidade deve ser encavalitada nos HUC. Pois eu penso que aí é que não.

Anda no ar de Coimbra a discussão quanto ao local para construção de uma nova maternidade, substituta da emblemática de Bissaya Barreto, que integrava o Centro Hospitalar (CHC), e da de Daniel de Matos, ligada ao Hospital da Universidade (HUC). A primeira possui instalações que, ao longo dos últimos anos, se foram deixando degradar; a segunda funciona em edifício arrendado e que o dono quer reaver.

Há 45 anos, um homem, Bissaya Barreto, de entre muitas outras obras a que dedicou a sua vida, revolucionou a Saúde em Coimbra. Criou nela um segundo pólo, a par do então velho Hospital da Universidade, a que chamou Centro Hospitalar de Coimbra (CHC), formado por várias instituições: o Hospital Geral (ou dos Covões), a Maternidade que ficou com o nome dele, o Hospital Pediátrico, os hospitais psiquiátricos de Sobral Cid, Lorvão e Arnes.

Também, na altura, não compreendido por alguns, que defendiam a manutenção do monopólio do único hospital até aí existente, Fernando Bissaya Barreto persistiu no desenvolvimento dessa instituição, que apelidou globalmente de hospital-cidade, por contraponto ao hospital-universidade.

E o CHC, mesmo após o desaparecimento do seu patrono, pouco tempo depois, e já em plena democracia, rapidamente cresceu e se impôs no panorama da Saúde local, regional e nacional, sem beliscar minimamente o Hospital da Universidade. Ao contrário, pela concorrência e emulação que com ele mantinha, o ajudou a dinamizar-se, e pode-se assumir que terá contribuído, se calhar de modo muito premente, para levar à construção do novo edifício onde ele se passou a alojar nos anos 80 [do século XX].

Houve, pois, durante 40 anos, espaço em Coimbra para os dois hospitais, colocando cada um e no seu conjunto esta cidade no mapa da Saúde, dando opções aos doentes na sua escolha, atraindo pacientes e seus familiares de todo o país, permitindo maior possibilidade de ensino da Medicina e de tudo o mais à volta dela, no que ambos colaboravam.

De capital a…

Nessa altura, Coimbra foi a capital da Saúde, com uma capacidade instalada, em termos de camas, de tecnologia, de “know-how” (saber fazer), de pessoal, de escolas e institutos com ela relacionados, que lhe justificava essa designação, com tudo o que ela trazia de bom para toda a cidade.

Veio, depois, a fusão de HUC e CHC; feita sem plano, à vista, dia após dia. A única coisa que nela parece ter sido feliz foi o nome encontrado: a junção de CHC com HUC deu CHUC, nada a dizer!…

Mas não é dessa fusão dos hospitais de Coimbra que estamos a falar, é da localização da nova maternidade. Sem esquecer o facto de Coimbra ter passado a possuir apenas um hospital, a que se chamou centro hospitalar. Embora este, agora único, continue a manter dois pólos… ainda lembrança da ideia e da obra de Bissaya Barreto.

Pois alguém tem dúvidas que, se Bissaya Barreto se houvesse mantido até hoje (ou alguém com a sua visão e capacidade), Coimbra possuiria, actualmente, dois pólos de Saúde? Um na margem esquerda do rio Mondego, na periferia da cidade, com muito espaço, bons acessos, com o Hospital dos Covões, o Hospital Pediátrico, maternidade, o Centro de Implantes Cocleares, o Centro do Sono, um Centro de Saúde, o Instituto de Sangue, Escola Superior de Enfermagem, Escola Superior de Tecnologias da Saúde. O outro, no centro da cidade, com o Hospital da Universidade e a Faculdade de Medicina (esta, aliás, já construída nas costas de uma bomba de gasolina, com crescimento e acessos muito limitados). Para além, é claro, de um outro centro especializado, de oncologia, o IPO.

… vistas curtas

Quem pararia Coimbra? Só os “coimbrinhas” que pensam que ela não é cidade para tanto… Os mesmos que, há 45 anos, não queriam… Quem nesta cidade tem vistas largas e consegue ver ao longe?…

Ouve-se dizer que uma comissão técnica nomeada terá desaconselhado a construção da futura maternidade nos terrenos junto ao Hospital Geral (Covões). Fico espantado, mas, depois, sabe-se que o raciocínio usado foi partindo do princípio que o Hospital Geral deixa de existir como tal. E, desse modo, deixa de haver possibilidade de a maternidade ser construída ao pé de um hospital geral num terreno espaçoso e sem encargos para o erário público.

Trabalho no Hospital dos Covões há 44 anos. Sei o que temos aqui. Sei que durante todos esses anos o nosso Hospital deu apoio total à Maternidade de Bissaya Barreto, sem nunca haver qualquer problema, incluindo acesso à Reanimação. E continuamos a dar-lhe apoio na Cirurgia Geral, na urgência e na rotina, depois de terem concentrado muita coisa nos HUC – percorreu-se o caminho inverso ao de Bissaya Barreto… querendo de novo acumular tudo num único hospital, desqualificando e anulando o outro.

No entanto, a capacidade instalada no Hospital dos Covões mantém-se intacta, apesar de muitas camas vazias. Não a aproveitar é criminoso. Só pessoal de saúde foi transferido. Mas pode voltar. Facilmente.

Também com o novo Hospital Pediátrico uma comissão técnica qualquer, na altura, desaconselhou a sua construção junto ao Hospital dos Covões… porque o terreno não tinha condições… Em S. Martinho do Bispo só puderam ser construídos o Hospital Geral, que foi sucessivamente aumentado, os edifícios das Consultas Externas e dos Implantes Cocleares, o Centro do Sono, o Centro de Saúde, o Instituto de Sangue, a Escola de Enfermagem de Bissaya Barreto, a Escola Superior de Tecnologias da Saúde!… Quer dizer: tudo, menos o Hospital Pediátrico (foi melhor o Estado gastar cinco milhões de euros no terreno em vez de o ter de graça!) e, agora, a maternidade! E com tanto espaço livre ainda, aqui, ao pé disto tudo (vide foto)!

Parece haver quem pense que a nova maternidade deve ser encavalitada no HUC e em cima do respectivo silo-auto (a construir, um dia…), bloqueada pelo trânsito e complicando-o ainda mais (a Câmara Municipal, depois, que resolva o problema!). Pois eu penso que aí é que não! Não, com tanto espaço, grátis, junto a um Hospital Geral (o mesmo que sempre lhe deu apoio a contento), ao Instituto de Sangue, a um Centro de Saúde, ao Centro de Implantes Cocleares e a uma grande Escola de Enfermagem, para além da Escola Superior de Tecnologias da Saúde.

Meter tudo numa área fechada sem possibilidade de sair dela é que não! Sobretudo quando há esta possibilidade, fácil e imediata, de um Campo de Saúde complementar, com bons acessos, espaço para estacionamento e facilidade de crescimento!

Quanto ao Hospital Pediátrico, não é fulcral estar junto a uma maternidade – aliás, foi construído, de raiz, bem longe de qualquer uma delas… – , já que as maternidades lidam com mulheres adultas e, além disso, necessitam de neonatologia, a qual faz parte integrante de si próprias.

Quem tem vistas largas em Coimbra?…

(*) Professor universitário e cirurgião

 

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