Coimbra  12 de Dezembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

Maternidade: Afinal, Coimbra merece ou não?

23 de Abril 2018

Diminuir a capacidade de resposta e ao mesmo tempo querer aumentar a procura?!

Coimbra é uma cidade curiosa, ou melhor, com gente com uma maneira de pensar curiosa: enquanto as cidades à volta procuram crescer e atingir o nível de Coimbra, por cá há quem queira que a cidade não cresça, ou até decresça, porque as outras entretanto cresceram!

Chegou a ser denominada, e justamente, como “Capital da Saúde”, quando tinha dois pólos de Saúde, trabalhando com pujança, colaborando nalgumas áreas e competindo noutras, porque não é do monopólio que vem o progresso, mas sim da emulação e da competição. Essa época foi exemplo disso mesmo, do que se pode fazer para tornar uma cidade com uma Universidade, um centro que atraia doentes, profissionais da saúde, investigadores nessa área e áreas afins. E investimento e progresso para toda a cidade.

Como aconteceu na pequena cidade de Rochester, no desértico e frio Minnesota, nos EUA, que tinha 13 700 habitantes quando foi lá criada em 1920 a Clínica Mayo, hoje uma das mais prestigiadas instituições de saúde do mundo. Actualmente, a cidade tem 106 000 habitantes, e a Clínica Mayo é composta por dois grandes hospitais gerais e vários especializados, com 33 000 trabalhadores só no campo clínico. Coimbra tem perto de 150 000 habitantes e uma Universidade e passou a ter apenas um hospital geral, depois da fusão dos dois que havia, com um total de 7 000 trabalhadores entre clínicos e outros.

Claro que para Rochester vai gente de todo o mundo, quer como médicos quer como doentes. E Coimbra não merecia tanto, diz-se… Clamou-se que se Leiria, Viseu, Aveiro têm crescido muito, para que era preciso Coimbra ter dois polos de saúde, com dois hospitais gerais? Para quê haver um hospital-universidade e um hospital-cidade, competindo e colaborando na assistência, no ensino pré e pós-graduado, na investigação, como durante 40 anos aconteceu, com bons resultados para a cidade, “Capital da Saúde”? Por que há-de haver dois hospitais gerais em Coimbra, se Viseu tem só um? E Aveiro? e Leiria? E pergunte-se também: por que razão Coimbra tem mais quatro clínicas privadas do que as que existem em cada uma daquelas cidades?… A esta última pergunta responda quem as explora, que estamos a falar do que é publico…

A lufada de ar fresco e de futuro trazida por Bissaya Barreto passou. Veio, então, a fusão, com cheiro a encerramento, a concentração, com ar de limitação, o acumular de quase tudo e todos num único hospital, a redução da capacidade instalada a um nível que seja consentâneo com o crescimento das outras cidades “da zona” e que não o perturbe, ao mesmo tempo que leve ao recurso a instituições privadas locais, entretanto criadas.

O desaparecimento da ideia de hospital-cidade, na periferia, com capacidade de expansão e acesso fácil, para voltar a encafuar tudo e todos dentro dos muros de um novo velho hospital-universidade, superpovoado, mais uma vez plantado no centro da cidade, rodeado e tolhido por ela e por isso sem lhe fornecer um acesso fácil.

Mas eis senão quando surge alguém que, muito bem, e com entusiasmo, clama pela internacionalização da Saúde de Coimbra, logra entrar nos meandros da M8 Alliance, traz essa organização de saúde internacional até nós, leva a cabo nesta cidade uma World Health Summit, anuncia e oferece serviços a doentes de todo o mundo, da Europa à China, planeia institutos e projectos de investigação do mais avançado que pode haver no mundo ocidental, a realizar e sediar em Coimbra. Mas, afinal… Coimbra merece ou não?!

Uns esforçam-se por andar para a frente, outros por andar para trás? Concertadamente?!

Será que se entende querer atrair a um único hospital, já a rebentar pelas costuras, geograficamente limitado, com estacionamento quase impossível, blocos operatórios saturados, muito mais gente de todo o mundo, entre doentes, profissionais, visitas, investigadores?! Ainda por cima pregando-lhe com mais uma maternidade em cima? Agravando desse modo os problemas do acesso e do estacionamento, e deixando-os para a Câmara resolver?…

Diminuir a capacidade de resposta e ao mesmo tempo querer aumentar a procura?! Mas será que Coimbra merece?!…

(*) Professor universitário e cirurgião

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