Coimbra  28 de Setembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Mário Soares: A Presidência Aberta de Coimbra (1990)

16 de Fevereiro 2017

Mário Soares recebido pela população junto à Câmara Municipal de Coimbra, em 29/06/1990 (D.R.)

 

A 16 de Fevereiro de 1986, Mário Soares era eleito Presidente da República, derrotando o grande rival Freitas do Amaral na 2.ª volta, na mais disputada campanha eleitoral de sempre, conseguindo concentrar em si a totalidade dos votos das forças políticas de esquerda, contrariando os resultados medianos que obtivera na 1.ª volta. Foi, no decurso desta campanha, que se eternizou a expressão «Soares é fixe».

A eleição de 1986 foi de suma importância na consolidação do sistema democrático: não só por ter sido o segundo presidente eleito democraticamente, por sufrágio universal após o 25 de Abril de 1974, mas também pelo facto de, pela primeira vez em 60 anos, um civil passar a exercer o cargo.

De facto, Mário Soares é o ponto de viragem entre antecessores e sucessores na Presidência da República. Recorde-se, a propósito, que após o 25 de Abril e até 1986, os presidentes da República tiveram como traço comum, herdado do Estado Novo, o serem militares: Antonio de Spínola (Maio-Setembro 1974), Francisco da Costa Gomes (Setembro 1974-Julho 1976), António Ramalho Eanes (Julho 1976-Março 1986). A partir de então, todos os sucessores foram civis.

No Distrito de Coimbra, Mário Soares obteve 52,70 por cento dos votos, enquanto no município conimbricense triunfou em 30 das 31 freguesias, perdendo apenas o duelo directo com Freitas do Amaral na freguesia da Sé Nova. O intenso momento político, seria levado ao extremo com confrontos na noite eleitoral opondo militantes/simpatizantes das duas candidaturas.

Mario Soares foi reeleito em 1991 de forma folgada. Os seus mandatos ficaram marcados pelos climas de tensão com o X, XI e XII Governos Constitucionais de Cavaco Silva, levando à dissolução do Parlamento e novas eleições legislativas em 1987, que deram ao PSD a maioria absoluta. Também durante os seus anos de mandato decorreram as Revisões Constitucionais de 1989 e 1992 ou a Adesão ao Tratado de Maastricht.

Soares inaugurou um novo tipo de relacionamento da Presidência com a sociedade civil, através das «Presidências Abertas», realizadas entre Setembro de 1986 e Abril de 1994. Nesse âmbito, passou pela cidade e região de Coimbra em 1990, tendo como objectivo «realçar a cultura» [vide Diário de Coimbra de 29/06/1990). Durante 10 dias, a Presidência da República ficou instalada na Reitoria da Universidade de Coimbra (instituição a comemorar 700 anos), enquanto a comitiva pernoitou no Hotel Astória, apelidado pelo povo durante esses dias como «Palácio de Belém da Portagem».

A cidade e região viveram 10 dias muito agitados, de 29/6 a 08/07, com a comitiva presidencial a visitar os 17 concelhos do Distrito, onde o já referido carácter cultural o levou a homenagear figuras importantes da vida portuguesa, sendo de destacar, em Coimbra: Carlos Seixas, António Nobre e Mota Pinto.

Um dos momentos de maior rebuliço na cidade nos anos 90, pois esta Presidência Aberta coincidiu também com as Festas da Cidade e da Rainha Santa, e com a Feira Comercial e Industrial (CIC/90).

A imprensa da época, relata o empolgamento do Município conimbricense, também ele liderado por socialistas: recuperação de edificios, ruas engalanadas com faixas com as cores da bandeira nacional, bandeiras da cidade e fotografias de Mário Soares em vários expositores. A recepção eufórica principiou no momento da aterragem da comitiva no Estádio Universitário, em helicóptero da Força Aérea, e continuou com a deposição de coroa de flores no túmulo de D. Afonso Henriques, cumprindo um desejo do próprio Mário Soares.

Um dos momentos mais relevantes, foi a sessão solene na CMC, onde a edilidade conimbricense se desdobrou em ofertas: uma salva de prata executada pelo Dr. João Costa (apadrilhando uma ideia da Joalharia Ágata); uma das primitivas edições do Tratado de Versalhes; e, por fim, um almoço nos claustros do Mosteiro de Santa Cruz.

Também de assinalar o discurso presidencial na sede da Associação Nacional de Municipios Portugueses, onde deixou uma mensagem plena de actualidade: ali realçou a importância do poder local «como um dos pilares mais sólidos da sociedade livre, aberta e solidária», bem como a urgência em «descentralizar, que constitui, no fundo, um modo de reforçar a capacidade criadora da cidadania», reafirmando, também, a «tradição municipalista portuguesa».

A Presidência Aberta terminaria no dia 08/7, com o descerramento de uma lápide na Câmara Municipal de Coimbra, alusiva ao momento vivido, tendo o helicóptero presidencial deixado a cidade por entre manifestações comovidas, antes de rumar a Viana do Castelo.

(*) Historiador e investigador